Domingo, 9 de Janeiro de 2005

Psicofotografia

"Ele tinha 54 anos. Há quatro anos que não estava com nenhuma mulher" - Get out of here...

Nunca antes nada de tão autobiográfico me causou tão profunda náusea. Estou a sentir uma ponta de ar que me acaricia o cabelo. Ar quente, cansa-me.
Sei que posso confundir-me! Mas nunca te confundas. A idade não é nenhum posto. Mas é um posto, isso sim, conhecer-te a idade. Intemporal e próxima de mim, nas ruínas dos corpos encontramos recantos que, como cicatrizes, relatam viagens que antes fizemos. Nunca subimos qualquer escada que não nos tivesse levado directamente à altura do inferno.
E fazemos de conta que tudo é normal e de que continuamos a viver. Bem, só me posso queixar de ter nascido com um vício da captura. Imprimem-se-me imagens num cérebro tão desgastado como os dentes dum cervídeo no final do ciclo de vida.
Porque será que tudo se esfuma à minha passagem? Fades contínuos entre abraços ocasionais e esquecimentos que perduram.
Bem, será que é assim o amor? Ficarmos sentados numa das mesas da esplanada do nosso inconformismo enquanto veraneantes muito morenas nos provocam, cada vez mais distantes?
É, ainda devo estar num estado psico-juvenil inapropriado à minha imperiência inválida. Acredito em tudo e depois toda a gente me confunde. Querem o quê? Fuck you!
Devastador, é o que é. Absoluta e estupidamente devastador, que coisa!



Num quarto muito estranho deixei-te, abandonada, nessa tua pose de incomportável tristeza… sedenta.



fot29 copy.jpg

Não sei se nos voltaremos a encontrar, nem quero que penses nisso. Mas quero que tu te fodas!



(Porque deixaste escorrer o meu bilhete e todo esse amor, sangrando, entre os teus dedos?)



Anonimo
(#30-50)


Impressão Digital Cereza às 19:14
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11 comentários:
De Selvagem Anónimo a 9 de Janeiro de 2005 às 21:05
é mais um texto lindo, de um anonimo.
Pergunto, estará ela a vestir-se, depois de ele a ter abandonado... ou terá ela acordado antes, e saído sem dizer uma palavra.cereza
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(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 9 de Janeiro de 2005 às 21:25
Ora agora aqui esta um dilema... Dos dois ele é q parece ter sido abandonado. Quem disse que ser fodido é mau? Acho que ela foi-se foder sim!AindaMaisAnonima
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(mailto:AnonimusSoul@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 9 de Janeiro de 2005 às 21:27
Cereza, que importa aqui o antes ou o depois? Importa sim reconhecer a perda de algo precioso, certamente o único elemento que faz uma diferença nas nossas vidas e que tanto nos pode matar de dor como dela nos curar. Reconhecendo a perda, inicia-se aí e logo o processo de recuperação, o qual pode ser mais ou menos longo. Caimos, levantamo-nos, voltamos a cair e, consequentemente, voltamos a levantarmo-nos e sempre de cabeça erguida pedindo mais e mais daquilo que faz a vida digna de ser vivida. Starry-Night
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(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 9 de Janeiro de 2005 às 21:49
starry concordo, nada como cair para aprender.... não pretendo tirar nenhuma elação.

mas o meu comentario anterior referia-se á foto, pq ela sempre exerceu sobre mim uma sensação estranha, alias comentei.o com a pessoa que escreveu este texto.
Já caí algumas vezes, e sempre consegui levantar-me! Sempre consegue ultrapassar o que de menos bom me acontece na vida. cereza
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(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 9 de Janeiro de 2005 às 22:04
Cereza... A foto é um adorno!!! Aposto mais no texto, lê-se nas entrelinhas!
O amor tem tanto de superfícial como de profundo. Eis a diferença do caso... Fêz-se sexo é fútil e banal , fêz-se amor é divino! E estas duas duas acções juntam-se em uníssomo com um 'vai-te foder'. É algo estranho, tão estranho ao ponto de se dizer que é... estranhamente humano!Suicidal_kota
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(mailto:cromokamikaze@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 9 de Janeiro de 2005 às 22:59
"...Sei que posso confundir-me! Mas nunca te confundas. A idade não é nenhum posto. Mas é um posto, isso sim, conhecer-te a idade. Intemporal e próxima de mim..." aiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!! nem vou comentar!!!!!!! detesto estas coisas da idade!!!!! que raiva :P
Mas o texto????? tá lindo!! tenho de confessar!!!! ;)
***************^Erina^
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(mailto:paula_m_sousa@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 10 de Janeiro de 2005 às 02:56
belo texto...sem duvida...onde por vezes a realidade nua e crua tb se consegue dizer com uma poesia que ate nos confunde...cereza quanto a tua pergunta....penso que ela ao sentar se naquela cadeira,de uma forma tão natural...tão escultural...conseguiu sem duvida envergonhar o sol que petranava por aquela janela..e suavemente virou o rosto de encontro da sombra,para o sol não se intimidar...e ambos conseguiram fazer de aquele momento um momento unico....ficando aquela noite que ela tinha passado...uma mera recordação de baú!!!heaven-hell
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(mailto:heavenhell72@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 10 de Janeiro de 2005 às 12:10
Nem sem pre o que parece é..E muitas vezes quem pensa que abandonou..foi o abandonado! Ou estão os dois pura e simplesmente na incerteza...mas o orgulho ás vezes estraga tudo e ninguem quer dar o braço a torcer, então torna-se mais fácil acusar, ou simplesmente não falar. A a vida segue o seu rumo como se nada tivesse acontecido.Fazer de conta que nada aconteceu..e está tudo bem! zila
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(mailto:zilapbl@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 10 de Janeiro de 2005 às 13:03
"...não as duas que ele teve, mas sim a que ele não tem ..."

Isto, para os mais desatentos, era Pessoa...

A mim impressiona-me a imagem e acho que enquadrou muito bem o texto...mais ainda, creio que o texto enquadra bem a imagem...

De resto, acreditem, a dor contida nesse texto vai muito além da objectividade e da precisão. É indiscreto, esse texto. Pode levar à morte. Mas isso, para isso, teria que me estender num chão muito gelado e conversar com quem entendesse alguma coisa do amor... Bem hajam e portem-se todos muito mal

Maslow
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(mailto:manuel_azevedo@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 10 de Janeiro de 2005 às 13:17
Como me esqueci do dicionário em casa, e além disso a minha memória é extremamente fotográfica, apenas digo que a foto está extraordinária. Mais um anónimo conhecido? Mas têm todos medo, ou quê?Watergod
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(mailto:a@a.com)


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