Sexta-feira, 31 de Março de 2006

Aromas da minha Terra I

Hoje uma homenagem a ÁFRICA, mais precisamente Angola! Mas a homenagem principal vai para uma pessoa muito especial, para o nosso "paineleiro" Abel que faz anos! Vocês vão já entender a razão a ligação entre Angola e o Abel!

 

É com muito carinho e orgulho que lhe desejo um Feliz Aniversário do Urban Jungle!

 

          

 

1 - Namibe, deserto onde nasci

Sol e maresia abundam por ali

Espectacular oásis onde brinquei

Sintam o lugar lindo que adorei

2 - Na Natureza dessas paragens

Vemos dunas e miragens

O chão ondulado no calor

Expira ar queimado do ardor

3 - Grãos amontoados de areia lisa

Moldados pelo vento e pela brisa

Infinita imagem de áridas ternuras

Inferno que amamos sem verduras

4 - No casario junto à praia

Onde cresci e sonhei

Muito que de mim saia

Dos pescadores herdei

5 - Tenro, nu nadei na enseada, grande

De nome, era mas já não é Alexandre.

Tombua, nome novo. Esquisito!

Agora já soa, para mim, bonito.

À terra o homem quis e ligou

O que Deus há muito semeou

6 - Welwitschia é seu nome

Mirabilis seu sobrenome

Tombua foi nome primitivo

O da Europa é o conhecido

7 - No Namibe foi onde Ele quis

No deserto a planta é feliz

O botânico a beldade estudou

Ao mundo a raridade divulgou

8 - Terra e Planta, Planta e Terra

No Namibe, perfeita combinação

Abençoada Natureza encerra

Os meus sonhos e paixão

9 - Casuarina, taipando aquele Local

Pinheiro bravo, importante Vegetal

Serenou as areias do ventão

E todos viveram na povoação

10 - Ao Norte, na saliente pontinha

Onde o Diogo nos pôs na Historinha

Pela escuridão Cabo Negro baptizou

Logo com Padrão o sítio marcou

11 - Naturalmente defronte em homenagem

O Navegador teve a sua imagem

Donde peixe e mexilhão foi apanhado

No Museu está o pedrão apresentado

 

       

 

O poema que a Cereza tem a amabilidade de divulgar não é de imediata interpretação para quem não viveu naquele lugar. Mesmo que tivessem conhecido, por breve passagem, desconheciam certamente pormenores que eu resolvi reviver. Por isso, achei por bem escorar o texto com algumas explicações. Pela extensão do texto e dos apoios, as minhas desculpas.

Vou ser longo, embora pontualmente, para que possam também gozar comigo um mundo que era só meu… Será gozo, prometo, mesmo para quem não goste de perder muito tempo com leituras, para quem não gosta de viajar, para todos os que gostando, não gostam de viajar lendo. Vou, com todo o prazer, servir de cicerone numa viagem que espero vos enleie e encante. Irão sentir certamente, embora de forma diferente, o que a minha “Lua” sentiu quando viu aquele recanto pela primeira vez, ou quando se banhou nas areias e no mar salgado daquele deserto, ou quando, um belo dia, correu sobre a duna, quebrada abruptamente, e se atirou para aquelas águas mansas. No mergulho apercebeu-se imediatamente que já não tinha pé (era suficientemente profundo). A duna era como se de uma prancha de salto se tratasse e o mar como se uma piscina ali existisse. Esse local era conhecido por Fundão por essa razão. Descolem daí, levantem essas “bundas” dos sofás e venham comigo a um mundo real que não quero virtual por ainda fazer parte do alto-relevo dos meus sonhos.

A 2ª quadra - Onde nasci. Trata-se de uma povoação plantada ao longo da praia de uma enseada (ou angra), localizada no lado contrário ao do istmo (ou língua de areia). A enseada tem a forma bem pronunciada de ferradura, cujo istmo chamávamos ilha (que de ilha nada tinha). Actualmente é mesmo ilha porque o mar entretanto engoliu a areia na parte que ligava a língua ao continente africano. Dentro da enseada, creio que cabe toda a actual esquadra americana. É de facto enorme. O misto de casario e estrutura de pesca (pontes em cimento ou em madeira) estavam compactamente perfilados ao longo da praia, numa extensão aproximada de 5 quilómetros. Desde a primeira casa à última pescaria (estrutura de pesca) só havia uma única rua asfaltada ao longo da praia (longitudinal). Se nos virarmos para Norte temos ao centro a estrada asfaltada, do lado esquerdo as pescarias (viradas para o mar) e do nosso lado direito (Leste) encontramos o casario, também voltado para o mar. Um arvoredo denso de Casuarinas taipava a urbe, retendo as areias trazidas pelos ventos. Ou seja, dum lado da estrada estavam as pescarias e do outro, em fila, as casas, normalmente pintadas de branco, talvez influência dos algarvios, embora as casas fossem diferentes das do Algarve. Toda a gente conhecia toda a gente (cerca de 5 mil habitantes entre negros e brancos – mucurocas, quanhamas, madeirenses, algarvios e poveiros.

Do 3º ao 8º poema - O nome da terra. Os navegadores começaram por lhe chamar Angra das Aldeias (desabitada). A colonização nessa área tem início por volta de 1800. Por alturas de 1835, o explorador inglês, Sir James Alexander, visitou essas terras (já lá havia colonos) e com as graças do Governo Português, as cartas inglesas passaram a constar de Porto Alexandre. Os portugueses, não se sabe bem porquê, cómoda e erradamente aceitaram tal topónimo. Existe uma planta no deserto, a poucos quilómetros de Porto Alexandre, que é única no mundo e com características muito especiais. Os nativos da região deram-lhe o nome de Tômbua, portanto milenar. Em finais de 1859 lá chegou um Sir, botânico inglês de nome Frederico Welwitsch, que se entusiasmou com a raridade. Estudou-a e a divulgou ao mundo. Deu-lhe o nome de Welwitschia Mirabilis (Welwitschia pelo seu nome e Mirabilis devido às miragens do deserto provocadas pelo libertação das vagas de calor emanadas do chão). Proclamada a independência de Angola, em 1975, o nome de Porto Alexandre (colonial) foi substituído por Tômbua (nacional), em homenagem ao nome da planta milenar.

9º poema - Esta quadra dá verdura ao ambiente com a Casuarina. A zona é fustigada por ventos, por vezes fortes, com direcção do deserto para o mar, carrega toneladas de areia tapando tudo à sua passagem. Impossível viver-se naquele local riquíssimo em peixe. As autoridades experimentaram tábuas e árvores para travar as areias do deserto trazidas pelo vento. A única espécie eficaz foi a Casuarina (tipo de pinheiro bravo ligeiramente diferente do existente em Portugal). A partir daí foi possível fazer nascer aquela povoação.

10º e 11º - Estas quadras revivem a história da nossa gente. O navegador português Diogo Cão ao descobrir Angola colocou um padrão (marco) no Norte (Zaire) e outro no Sul (a 10 km a Norte de Porto Alexandre aproximadamente). O do Sul foi colocado no extremo de um cabo marítimo a que chamou Cabo Negro por ser muito escuro, visto de longe. Curiosamente, em frete, dentro da água, está uma pedra muito grande que faz lembrar a cabeça de uma pessoa. Por isso se diz que é a cabeça desse ilustre navegador português. O padrão original encontra-se na entrada do Museu de Marinha em Lisboa pelo que, o existente no local (se não foi retirado após a independência) é uma réplica. Na base da rocha desse Cabo e nas pedras circundantes existe muito mexilhão grandão (com sabor a maresia) que lá íamos apanhar.


14/Fevereiro/2006
Abel Marques


Impressão Digital Cereza às 00:25
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28 comentários:
De M. a 13 de Junho de 2008 às 16:37
Permita-me corrigi-lo:
Frederico ou Friedrich Welwitsch era um botânico esloveno nascido na Áustria. Mas ele passou por Inglaterra antes de seguir para o continente africano.

O nome que deu à famosa planta foi Tomboa Angolensis e só em 1863 é que J. Dalton Hooker a apelidou de Welwitschia mirabilis, em homenagem ao botânico.


De flyman a 4 de Abril de 2006 às 19:27
lol... PARABÉNS...


De flyman a 4 de Abril de 2006 às 19:26
Bom... como acho que de forma alguma devo deixar de desejar as maiores felicidades ao Abel, atrasado, mas para isso, sempre a tempo, Abel, desejo sinceramente os maiores sucessos com uma palavra também de agradecimento pelos ensinamentos e pela partilha aqui deixados. Quanto a África, enquanto não tinha lá ido, achava engraçado os documentários e os filmes que ia vendo... nada mais. Depois, quando lá comecei a ir, entranharam-se-me as cores, os cheiros, os animais, as pessoas, as paisagens deslumbrantes a perder de vista, a noção de espaço. Parabéns, Abel... atrasados, é certo, mas PARAÉNS!


De anassu a 3 de Abril de 2006 às 17:16
Sei que já passou algum tempo, mas como não tive oportunidade aqui ficam os meus Parabéns! Gostava muito de conhecer todos estas sensações. Quem sabe um dia :)


De Abel a 1 de Abril de 2006 às 23:04
Para começar, quero agradecer à Cereza todo o trabalho desenvolvido e pela incansável preocupação de estar atenta ao meu aniversário. Pela simpatia e ternura vai um poeminha para ela:
Tenho uma florzinha
Pequena só no tamanho
Que dou à Cerezinha
Num especial dia do ano.
.
Música de terna bondade
Da Senhora da Muxima
O Bonga trás a saudade
Daquela terra que estima
.
Com o intuito de elucidar esclareço o seguinte: A primeira paisagem apresentada, diz respeito a um planalto situado horizontalmente (Leste) a Luanda (se a memória não me atraiçoa) porque a minha terra é deserto puro, com imagens iguais aos do deserto do Saara. A referida paisagem com dois morros verdejantes distam da minha terra cerca de 1000 a 1500 quilómetros a Nordeste do deserto do Namibe. De qualquer maneira, fica a boa intenção por a Cereza ter tido a preocupação de colocar imagens de Angola, como foi o caso. A outra é de facto uma imagem característica desse deserto, embora não seja típica. Esta é de dunas soltas e grandes como é mais vulgarmente visível. Nem a propósito! A última revista da “Visão” faz-se acompanhar de um livro (volume 1) com lugares interessantes para visitar e um deles é o deserto do Namibe. A capa deste livro é precisamente uma imagem típica de dunas desse deserto que amamos sem verdura. Não queremos couves nem alfaces nesse deserto porque ele tem que ser mesmo assim, tal como a natureza o dotou. Já agora, o deserto do namibe apresentado por esse volume da Visão está situado a sul do rio Cunene (tem por exemplo a Costa dos esqueletos) e a minha terra fica a Norte da margem desse Rio de grande caudal.
Aproveito para pedir desculpas à Cereza por ultimamente estar muito afastado do Blog. Não é por desinteressa mas sim por alguma preguiça e também alguma preocupação e ocupação com compromissos profissionais que assumimos.
Como normalmente a boneca Russa trás sempre um pouco da sua graça e beleza, também desta vez não quis ser desmancha-prazeres ao intervir de forma transversal com um texto descentrado, enriquecendo o seu comentário e o meu poema. Está ternurento e delicioso. Uma flor também para ela porque nunca algo lhe dei …
Para todos os outros (Pudim, PatanisKa, Morgaine, Mina, Majoca, Dríade, Elvira, Criador de sonhos, Nina, Paulinha, Marta, Vanessa, Encantos e paixões, Raio de Sol, Erina, Carlos Murat e Marco Neves), um grande abraço pelas palavras simpáticas que agradeço e pelas bonitas que não mereço. Para todos os outros que não intervieram directamente mas vieram a nós ler-nos, as minhas saudações sinceras pela vossa participação passiva e, já agora em nome deste Blog os cordiais agradecimentos.


De Marco Neves a 1 de Abril de 2006 às 12:24
Oh Sr Abell, desculpe lá ser o último e já com um dia de atraso... mas tambem nessa provecta idade mais dia menos dia e tal... ihih! Espero que tenha levado em conta a minha sugestão das cuecas amarelas (se essa história lhe for desconhecida pergunte aí a essa senhora. Sim! Essa mesmo!). Pronto... e agora... não sei.... onde anda o bolo??!? Sobrou uma fatia para mim ou contento-me com as migalhas?


De Carlos Murat a 1 de Abril de 2006 às 01:04
Abel os meus Parabêns


De ^Erina^ a 31 de Março de 2006 às 21:43
O s meus parabéns por mais um aniversário, que passe um resto de dia feliz :). É bom quando alguém escreve com paixão, diria que é fácil (pelo menos para si assim parece) quando se fala de algo que se gosta, mas o que dá para notar é que tudo o que escreve é feito com "feeling" e dá para perceber isso na sua escrita :). Sinceramente Angola não é um dos meus destinos de eleição. Embora todas as pessoas que conheço e que lá viveram falam sempre daquela terra com um certo saudosismo. è sempre um prazer ler as suas palavras :).


De Cereza a 31 de Março de 2006 às 20:08
Eu gostava de escrever um poema para dedicar ao Abel, tal como ele já fez comigo... mas.. como não tenho o dom que ele tem, nem me atrevo!
Por isso, Abel, muitos parabens, que tenhas um dia maravilhos, que a vida te dê tudo de bom, porque és uma pessoa maravilhosa!
beijos


De Raio de Sol a 31 de Março de 2006 às 17:27
Muitos Parabéns...Prof. Abel...!
Muito e longos anos cheios de alegria e felicidade!
Adorei as Flores...!
Beijinhos!


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