Quinta-feira, 11 de Maio de 2006

Ser ou não ser…. Alentejano, eis a questão.

E de Itália viajamos para Portugal, mais própriamente para o Alentejo, pela mão da Pataniska.
 
Se a minha terra é Lisboa…..a minha casa é o Alentejo. Aqui há uns anos atrás, quando estava na moda as anedotas de alentejanos (benditas louras que as vieram substituir…) confesso que ficava sempre com uma mágoa, não conseguia entender o porquê de querem ridicularizar um povo e uma região que me era tão querida.
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Este texto, aqui reproduzido, da autoria de Leonardo Santana-Maia, advogado e professor, faz parte da revista “Alentejo Terra Mãe”, publicação trimestral, propriedade da Fundação Alentejo-Terra-Mãe (www.ALENTEJO-TERRAMAE.PT). A revista tem como fins a divulgação da história, tradições, costumes e falares do Alentejo, bem como a defesa e a preservação dos valores culturais, artísticos, arqueológicos, paisagísticos e ambientais da região.
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“Alentejo, palavra mágica que começa no Além e termina no rio Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que, à semelhança do Homem português, fugiu de Espanha à procura do mar.
O Alentejo molda o carácter de um homem. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.
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Portugal nasceu no norte, mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade; Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras, um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.
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Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino, depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia, para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguiria suportar o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que, para um homem comum, fica muito longe, para um alentejano, fica já ali. Para uma alentejano, não há longe, nem distância, porque sabe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
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Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar… E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: “Não, é já ali.”. O fim do mundo afinal ficava ao virar da esquina.
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Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continua a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos. D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. É certo que o rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia dúzia de alentejanos.
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Mas os alentejanos não servem só as grandes causas. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar?”
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Dá-me mesmo vontade de dizer à boa maneira alentejana: Áh magano!!!
PATANISKA
 

 

Comentário em Destaque:

 

 

De Marco Neves
11 de Maio de 2006 às 23:43:

 

É sermos e sentirmos...

Mesmo quando Agosto e a aragem quente seca os campos despidos...

As mulheres de negro contrastando com o branco das paredes...

E quando a manhã desperta? Saberão vocês ouvir?

E no frio de um Inverno quando passamos por uma casa e cheira a açorda... ou quando ao fim da tarde as braseiras invadem as ruas antes de aquecer as pessoas...

...e algumas que já não chegam

...nem voltam.

É assim mesmo... quando temos de parar e respirar bem fundo.

Nós vamos ficando, neste gerúndio... porque somos assim.

Amo-te Alentejo.
       
               ( Alcaria Ruiva - Alentejo / Foto tirada por: Marco Neves )

Impressão Digital Cereza às 21:14
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12 comentários:
De DevilGirl a 13 de Maio de 2006 às 01:49
Gostei muito deste post... não conheço o alentejo mas gostava... Eu sou tripeira e amo a cidade onde nasci, aqui fui criada e aqui quero viver até que me seja possivel...


De lua_de_Avalon a 12 de Maio de 2006 às 22:23
PATANISKA , exelente escolha!!! passei várias vezes pelo Alentejo e adoreiiiiii e o Sol prenhe de energia mas de “queimar miolos” especialmente na hora do meio-dia..:))))


De Morgaine a 12 de Maio de 2006 às 17:04
Adorei o texto. E o comentário do Marco também! É este tipo de texto que nos consegue transportar para outro local, viver e sentir as emoções. E o alentejo é sem dúvida, um lugar cheio delas,


De marta a 12 de Maio de 2006 às 13:43
Vou apenas ler, e sentir...é uma alma diferente,disso não tenho duvidas,arrisco até a dizer que mais sincera.Beijos


De xinxa a 12 de Maio de 2006 às 12:38
Cá por mim o Alentejo é uma extensão de Espanha...
E isto é um comentário positivo!

Bom fim de semana!


De Tex a 12 de Maio de 2006 às 11:27
O amor pela nossa terra...
aí está um amor verdadeiro que prevalece no tempo...

"O Alentejo quando canta
Peito dado à solidão
Traz a alma na garganta
E o sonho no coração"


De flyman a 12 de Maio de 2006 às 09:40
Todos os recantos de Portugal têm um encanto especial. Ás vezes é preciso procurar, outras estendem-se ante nós. O Alentejo terá muitos encantos escondidos, mas é das regiões mais generosas, pelo que nos dá de borla, sem trabalho, incondicionalmente. Espaço aberto que escancara a mente de quem a isso se dispõe. É o bocadinho de Portugal mais parecido com África. Ás vezes quase se pode esperar ver um dos "Big Five", na colina seguinte... Eu gosto do Alentejo. Muito. Gostei do comentário do Marco. Muito.


De empadinha a 12 de Maio de 2006 às 09:01
Não conhecia o Alentejo…
Há cerca de dois anos atrás conheci-o pelas mãos daquele que viria a ser o grande amor da minha vida…
De facto o Alentejo ama-se…
Ama-se o que o olhar alcança, ama-se o sentir da terra, ama-se o cheiro, amam-se as pessoas…
Da última vez que percorri esses kms chorei todo o caminho...
Era um dia de chuva intensa, mas o que me fez chorar, de saudade... foi saber que parte de mim ali ficou, para sempre…
Vivo entre a dor e a felicidade de ali ter vivido os melhores momentos da minha vida.
Amo-te!


De PatanisKa a 12 de Maio de 2006 às 01:10
Assim, como me arrepiei ao ler o texto aqui reproduzido o mesmo aconteceu, com o comentário do Marco...E "não se nasce alentejano, é-se alentejano" . Muitos anos vivi, sem saber de onde era. As recorações são muitas, tanto da minha vida em Lisboa, como das férias passadas no monte da minha avó. Mas, aqui no Alentejo, aprendi desde muito cedo a ser LIVRE a ter PAZ... qdo corria pelos campos e me rebolava no trigo...qdo dá-va pulos no pó fininho da estrada, só pelo prazer de me sujar,...qdo brincava com os bogalhos à sombra dos chaparros e fazia os currais com as pedras do caminho...qdo subia às árvores para apanhar fruta e para andar de baloiço...E os cheiros?? O cheiro a terra molhada num dia de Verão?? O cheiro das linguuiças a corar no fumeiro?? O cheiro do pão acabado de tirar do forno??? Ter o prazer nas noites de verão de me deitar numa mó de moinho e contemplar as estrelas para descobrir as constelações....São mil e uma recordações qual delas a mais querida, são mil e um cheiros, odores sabores q aqui descobri...São os pequeno prazeres da vida, aqueles q não há dinheiro q os compre q tenho a felicidade de os ter desfrutado....e de os desfrutar ainda hoje. Posso ter nascido e vivido em Lisboa, mas sem dúvida q é no Alentejo que me sinto em casa.


De _SecretSmile_ a 12 de Maio de 2006 às 00:31
A única coisa que posso fazer é...sorrir, muito! Orgulho-me de o ser, simplesmente de o ser =)


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