Segunda-feira, 24 de Julho de 2006

( Fogo de... ) Artificio

Um texto do Marco Neves, que poderá sempre visitar em: http://lampadamervelha.blogspot.com/

 

Hoje por acaso também me sinto desta maneira... mas em relacção a tudo.

Enfim, dias!

 

 

Sim!
Sou eu quem te escreve, num pedaço de cartão da embalagem de detergente.

Porquê?
Pareceu-me indicado. As mesmas palavras, nem sempre têm a mesma distância ou o mesmo significado. Por vezes nem importa de como são usadas, nem se distinguem de quem as pronuncia.

Aparentemente...
Estou bem, mesmo que a minha vontade seja parecer o contrário. Apetece-me, sinto-me assim. Hoje quero estar fastidioso e de mau agrado. De cada vez que abrir esta boca, que se abata uma tempestade em cima de um fulano qualquer, ao acaso, no outro lado do mundo.

Sim, já te disse que sou eu.
Aqui, à espera de finalizar um dia em que manifesto um mau génio. Não me sinto permissivo a nada e para nada. Mais intolerante que o costume, porque não? Não quero que tomes as minhas palavras num sentido contrário àquele com que são escritas. Limita-te a ler, medindo em cada uma, a distância que têm com tudo aquilo que nos liga.

Não quero!
Nem digas que eu embirro, por tudo ou por nada, qualquer coisa! Muito menos me apetece que me digas que isto é tipicamente de homem. Não me classifiques! É tipicamente meu, só meu! Sou único, exclusivo, exigente, consumidor inveterado, um drogado de mim. Monopolizo-me para consumo interno, não quero saber.

Exalto-me!
Porque não acho, tenho é a certeza de que quero ser ríspido. Exijo que me atures. Vou-te fazer mal, sem que seja algo de grave. Espero apenas pelo momento certo.

Não!!
Já te disse que hoje me apetece andar desalinhado, sem pentear o cabelo, de camisa mal abotoada. Mesmo que não te tenha dito antes, é como se já o tivesse feito. Se foste apanhada de surpresa, é porque o teu instinto premonitório não funcionou. Tudo conspira contra mim

Vou continuar a reivindicar pelos meus direitos. Vou reclamar, jurar que te processo de cada vez que me revirares os olhos. Vou fazer greve das boas maneiras. Dizer-te que isto não pode continuar assim, desta ou de outra maneira. Não interessa como, não pode!

Não te rias!
Não acho nenhuma piada. Vou partir algo aqui por casa, de propósito. Não gostaste, pois não? É para que tomes consciência que não me sinto contente. Vais gritar, dar força aos teus pulmões. Eu, com cara de amuado, afasto-me de ti, desarrumando tudo o que estiver ao alcance das minhas mãos.

Brindo...
Entrando na competição de esvaziar o copo de bebida, o mais rápido que consiga. Mesmo que me saiba mal, vou beber. Eu quero que me saiba mal. Vou chamar por ti, pedir que te sentes à minha frente para te dizer que apenas quero estar sozinho. Não te afastas muito, pois a minha solidão de ti é não sentir-te a mais de 5 metros.

Sinto...
A transfiguração permanente do meu rosto. A cada ímpeto desta desconcertante sensação que me passa pelo sentido. Chamo por ti, pela milionésima vez. Quero esgotar a tua paciência. Sim... porque eu quero, mas não quero.

Entretanto...
Chegarei ao ponto em que saio de casa, batendo com a porta. Saio como se nunca mais voltasse. Na melhor das hipóteses como se fosse demorar uma eternidade para voltar. Não me despeço de ti.

Mostro...
A minha má cara ao mundo que está contra mim. A luz incomoda-me, o movimento implica comigo, mais ainda quem está parado, debaixo de uma sombra. Páro frente ao mar, fico ainda mais irritado. Entro no supermercado, caminho com extrema petulância. Dirijo-me à empregada de caixa, pago a única coisa que fui buscar e que me fez entrar naquele local odioso. Antes de lhe virar as costas, como se ela fosse igual a uma máquina de tabaco, fulmino-a com um olhar. Para mim, hoje nada presta. Volto para casa, como se tivesse passado muito tempo. Na realidade, nem meia hora passou. Atiro com violência as chaves para a mesa, a madeira acusa as marcas de outros dias assim.

Eu olho-te...
Se sobrancelha ainda franzida e de rosto fechado, sussurro em tom monocórdico;
“É gelado de baunilha...”

E tu...
Que me conheces, por dentro e por fora.

Saberás...
Beijas-me.

...e tudo passa.

 

Marco Neves

 

"I’m like a soldier

 With no cause to fight

 Playing with bar boys

To test you just right

 I watch your features

I check for a sign

Of some kind of failure

Then I feel sublime..."


Impressão Digital Cereza às 21:52
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13 comentários:
De Marco Pereira a 31 de Março de 2008 às 17:00
Passei aqui sem querer.... li um comentário sem querer.... e ai comecei a ler os textos... dei por mim a comentar... julgo que foi porque me agradou profundamente.... P.S: ODEIO LER mas de facto esta espetacular!!


De isabel a 26 de Julho de 2006 às 00:40
Eh Verao, ame-mo-nos uns aos outros... que faz bem ah pele!
E estar mal disposto faz muitas, mas mesmo muitas, rugas. I feel sublime! And lazy...



De Morgaine a 25 de Julho de 2006 às 23:39
nao vale!! Eu já li este texto nao sei onde e ja comentei! nao vale!! Onde é que eu li isto bolas???


De Marco Neves a 25 de Julho de 2006 às 20:04
De facto, o gelado em si pouco significa. Apenas personifica o ponto exacto onde devemos parar.

E é tão bom comer um gelado a dois. Tornam-se as mãos em colheres, e os corpos em taças...



De Tex a 25 de Julho de 2006 às 18:01
Bem assim de repente e hoje a partir de ontem eu era mais
atirar-lhe com o gelado aos olhos!


De Marco Neves a 25 de Julho de 2006 às 20:05
Sim sim... que não lhe falte pontaria, tá?


De Majoa/SaloiaLoira a 25 de Julho de 2006 às 17:11
Sr Marco do coração...muito eu gosto de te ler...até que acertas no sentir de muitos lolol
Só não acertas no meu gelado lololol não gosto de baunilha...
Toma um beijo e continua. ( não sei se é só um mas enfim)
Cereza vai apanhar sol que é a receita certa:)


De Xanadu a 25 de Julho de 2006 às 14:50
Passeio-me constantemente por este blog, mas nunca tenho coragem para comentar. Voces são uma familia, e por vezes tenho medo de me intrometer. Mas hoje resolvi que tinha que ser, porque entendo o autor deste texto. Entendo esses dias, em que nada, nos diz nada, em que o mundo conspira contra nós! E um gelado de baunilha é tão pouco, mas ao mesmo tempo tanto, que nos transforma o dia. Parabens Marco, senti o que escreveste. parabens.


De marta a 25 de Julho de 2006 às 10:28
Palavras para quê?
O Marco já nos habituou ao encanto dos textos que escreve...
Também tenho dias destes...só porque me apetece!!!
Um beijooooo Marco


De lua_de_Avalon a 25 de Julho de 2006 às 13:18
Gostei Marco!!
Beijo


De Justin a 25 de Julho de 2006 às 09:01
Antes de tudo quero dar os meus parabens ao marco pelos excelentes textos com que brinda este blog. Aqui temos mais um, repleto de uma enorme carga de paixão/amor.

é verdade, quando sentimos esses sentimentos por alguém, ás vezes sentimos necessidade de lhes fazer mal. E ás vezes doi.

Quanto á cereza as palavras são as mesmas, Ela ilustrou este texto de uma maneira espectacular tão tipico dela. Parabens a ambos!


De Cereza a 25 de Julho de 2006 às 11:48
Obrigada Justin :)


De Safira a 24 de Julho de 2006 às 22:06
Adoraria poder dizer que tudo passa mas, à medida que o tempo avança, cada vez mais me convenço que nada passa, tudo permanece...


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