Terça-feira, 8 de Agosto de 2006

O homem nas mãos

 

Encontrei este texto fantastico na net.

Afinal o Amor não é tudo na vida!

 

  

 

 

Sim, realmente eu matei.

Era a prova de amor, a suprema prova que exigira de mim. Eu dera-lhe um carro. Não gostara. Dera-lhe um apartamento. Apenas o aceitou. Dei-lhe um iate. Não se convenceu. Já me atirara a seus pés, muitas vezes, sem êxito algum. E antes de me ajoelhar e antes do automóvel, do apartamento e do iate, já lançara mão de todos os recursos ao alcance de um apaixonado em pleno delírio. Nada a comovera. Só acreditaria, só aceitaria um grande, um infinito, um amor sobre-humano.

Assim julgava eu o meu amor. Ela não se convencia, porém. E eu sofria e escrevia poemas e chorava ao luar. Era a inatingível. Ofereci-lhe a minha vida. Recusou. Jurei que me mataria em seguida, se ela cedesse. Ela sorriu. "Pede-me o impossível", dizia eu. E ela sorria. Para os grandes amores não existe o impossível. Estava toda inteira, nessa minha proposta, a prova definitiva de inexistência do amor em meu coração. E eu continuava me multiplicando em humildade e entregas desvairadas.

Um dia, olhei para a minha vida. Estava arruinado. Nada mais tinha de meu. Se ela quisesse um automóvel novo, um iate mais recente, um apartamento maior, já não os poderia dar. Meu desespero foi, então, sem nome. Perdera a última esperança. Mas conservava ainda a capacidade de argumentar, estranho poder de raciocinar friamente. Atirei-me de novo a seus pés. Se não era o dinheiro, se não eram tributos materiais de amor o que esperava, mas a prova apenas de um grande amor, a prova ali estava, na minha miséria. Que exigia agora? Que podia esperar?

— Enriqueça de novo.

E dentro em pouco — somente eu, ninguém mais, pode falar do que é capaz um grande amor — estava rico outra vez. Novo automóvel? Dela. Viagem à volta do mundo? Teve. Jóias? Colares? Todo dia. Festas? Jantares? Boates? Uma eu construí exclusivamente para ela e seus amigos. Três semanas depois, entediada, me dizia:

— Pode fechar a boate.

E eu fechei.

Abri e fechei em vão. Como em vão fora tudo. Era tédio e ceticismo. Certa noite, alucinado, eu a levava de automóvel por uma estrada maravilhosa.

— Você quer a lua?

Ela sorriu.

— Não. Mate aquele homem.

À luz clara do luar, caminhava um pobre vulto à nossa frente, cem metros além. Pisei o acelerador. Teve a duração de um relâmpago.

— Vamos ver se morreu, disse ela.

Voltamos.

Sim, valeu a pena. Ela foi minha. Foi minha, afinal. E a vida se iluminou. Vivi alguns dias ou anos ou séculos — até hoje não sei — na mais total felicidade. A natureza cantava, os pássaros cantavam, o mar cantava, as ruas cantavam, as casas cantavam, cantavam os homens anônimos nas ruas. Até que ela começou a não acreditar outra vez. E eu voltei a dobrar-me a seus pés. E a suplicar, a pedir, como um doido. Desci a todos os extremos. Até cantei boleros. Inutilmente. Foi quando, depois de novos boleros e jóias, ela me pediu outra vida. Apressei o carro — o luar era lindo — e tive-a novamente em meus braços. E daí por diante esse foi o preço. A sorte me ajudava de maneira espantosa no jogo. Do produto de uma noitada ofereci-lhe um colar de um milhão. Ela olhou o colar, abandonou-o displicente no sofá.

— Eu quero é sangue.

Levantei-me, com a chave do automóvel na mão.

– A tiro, disse ela.

Voei para casa, apanhei o revólver, ela ao meu lado.

— Eu quero ver.

Viu.

Tive-a de novo.

Passou tempo, depois disso.

Confesso, agora, confesso humildemente, que o amor também passou. Não sei como. Não sei quando. Foi de repente, foi aos poucos, não sei. Acabou. Hoje eu mato, mato quando ela me pede, quase por constrangimento, por hábito talvez. Porque ela pede. Talvez para não desapontá-la. Talvez para não me desapontar. Talvez querendo iludir-me. Talvez por displicência, por preguiça mental, preguiça de reagir. Mato sem vontade, mato sem paixão, quase uma questão de rotina. Pediu, eu mato. Adquiri o hábito de obedecer. Ficou em mim, entrou no meu sangue, esse automatismo. Uma jóia? Eu compro. Um carro? Eu dou. Um homem? Eu mato. Eu não tenho é meio de recusar. Não me interessa mais, não quero mais, mas faço. Faço, obedeço. Negar não sei.

O pior é que, pelo jeito, ela anda querendo que eu me apresente à polícia...

 

Autor:

Orígenes Lessa

 


Impressão Digital Cereza às 00:02
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17 comentários:
De flyman a 8 de Agosto de 2006 às 22:50
Se é Cascais, não sei... o que sei é que a praia é a da Foz do Arelho no auge do Verão do Oeste (nevoeiro para dar e vender - ... se bem que nos últimos Verões esse maldito e tradicional nevoeiro não tem aparecido...). Vivó Verão, poder andar c'os calções na mão e poder fugir à Foz do Arelho durante a invasão!!! LLLLOOOLLLL


De Woman a 8 de Agosto de 2006 às 20:48
Possessivo, agoniante ...
Gostei.

;), beijo


De Majoca a Saloia a 8 de Agosto de 2006 às 19:45
arre detesto este texto...o sentimento que decifro.
Pois... esta dependência/ submissão choca-me.
Mas gosto da musica ai se gosto
bejos oh patroa cereza da silva e já estou a trabalhar que me farto
Moi


De cereza a 8 de Agosto de 2006 às 20:14
majoca lindaaaaaaaaaaaaaaaa
oh mulher tb o texto não é para gostar lolll só pode ser doente... mas dá pra ver como ás vezes o amor não é tudo na vida!

ai tu não trabalhes demais!!!!!!!! eu vou de ferias sexta!!!!!!!!!!!!


De Isabel a 8 de Agosto de 2006 às 13:25
Ah... e não queria deixar de referir que como ontem, embebecida pelas palavras de George Steiner, o entendo em toda a sua complexidade Heideggeniana (não sei se posso falar assim, mas que se dane...), quando ele, enquanto se revela um amante extremoso dos livros e da leitura, é em simultâneo, um homem extremamente angustiado com a soberania da tecnologia e o declínio da "humanística". Será que ainda lemos...a ler?
Encanto-me ainda!


De Isabel a 8 de Agosto de 2006 às 13:13
Quem não aprecia a obra desse incomparável homem de Lencóis Paulista, que viveu e escreveu, com a mesma intensidade do seu trabalho como publicitário? (Note-se que Lessa viveu a maior parte do tempo em Nova York a trabalhar no Coordinator of Inter-American Affairs, tendo sido redator na NBC, cerca de 40 anos - Haja saúde!).
Brilhante, como só alguns conseguem, mesmo com temas, em que as sirenes tocam insistentemente, nas nossas mentes...


De Cereza a 8 de Agosto de 2006 às 20:16
aiiiiiiiiii Isabel, que raiva LOLLLL eu sou uma preguiçosa pra ler... tenho que me obrigar! :|

eu tenho um excelente texto da Xinxa para publicar sobre a leitura ;)


De Safira a 8 de Agosto de 2006 às 11:12
Sinceramente nem sei o que dizer, não sei comentar este texto. Valeu pela música.


De Isabel a 7 de Agosto de 2006 às 00:29
Os perigos de um "open heart".
Chamem a imagem do post anterior e o final aí está, frio, cruel, certeiro.
Melhor seria "amar uma pedra".


De Carlos Gomes a 6 de Agosto de 2006 às 23:27
Espantoso como alguém consegue permitir-se uma submissão tão extrema, mesmo sendo uma obra de ficção, como presumo que seja.

Impressionante como alguém permite que o seu ego seja esmagado desta forma...A troco de quê? Pouco mais que nada...


De Abel a 6 de Agosto de 2006 às 20:20
A peste é tótó em exponencial porque são muitos os períodos presenteados ao bibelot. Ele não ama. Ele nasceu para orgasmar vontades. Este (ou esta), o bibelot, um dia acabará muito só. Faço figas para que os dois não tenham tido uma grande longevidade. E se ainda existem, apelo a uma vida efémera porque quem não ama nada está a fazer neste mundo. Pior ainda é não amar e não deixar amar ou viver. Deixem-nos…


De encantos_e_paixoes a 6 de Agosto de 2006 às 19:09
Acabadinha de chegar de um mini fim de semana na Arrábida,
(Obrigada mundo por seres assim. A Arrábida é um lugar perfeito), corro esfusiante para a net, porque não há nada melhor para fazer, abro o Blog, e vejo o quê??? O Drácula??????? Mas ké isto????? Porreiro????? Porreira era!!!!!!!!
Raios parta o Morcego.
Desculpem lá todos, tu também Morcego Drácula, mas Morcegos à parte, eu cá só gosto do Morcego Vermelho. Adeusinho.


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