Terça-feira, 8 de Novembro de 2005

O Jogo

"...Fever, with his kisses

Fever when he holds me tight

Everybody's got the fever

That is something you should know

Fever isn't such a new scene

Fever started long ago..."


fever24 copy.jpg


Sentia-se dormente.

Aos poucos o corpo entrou num formigueiro que lhe provocava cócegas. O corpo todo sentia, em uníssono, aquele prazer.

Sózinha, só lhe restava imaginar, pensar no transbordar supremo que a levarà à supressão da inércia e lhe povoava a pele de caminhadas de dedos nómadas, sempre com ânsias de conhecer mais e chegar onde ninguém tinha ainda ousado penetrar.

Colocou um espelho em frente da poltrona e amantizou-se consigo própria. Explorou, enveredou por caminhos já gastos, mas nunca percorridos com calma, a calma que permite apreciar o orvalho que escorrega languidamente nas folhas, o sol a penetrar nos mais pequenos sulcos da casca da árvore, o vento a fazer balançar os ramos, numa canção de preliminares lentamente absorvidos, as flores a abrirem-se e a darem-se a passeantes com asas ou sem elas, para que possam aspergir o seu perfume, o seu cheiro, os seus fluídos.

Voltou a colocar o espelho no lugar, e enquanto o fazia, o seu peito mostrou-se nu e empertigado, perante ela. Gostou do que viu e, como quem prazenteiramente, passa a mão pelo cabelo ralo de uma criança rosada, pensou fazer o mesmo no bico eriçado que pedia uma utilização húmida e molhada, de modo a dar-lhe brilho, para acentuar a sua altivez. Os dedos de unhas cortadas rentes satisfizeram a vontade e o olhar. Provocou um arrepio onde antes estivera a dormência. Abanou-se. Voltou a experimentar a sensação, desta vez sem a suavidade do afago, mas já com o calor da experimentação, a força da vontade. Gostou ainda mais.

Afastou-se do espelho o suficiente para se ver até à zona curvilínea das ancas. Só tinha duas mãos e utilizou-as. Para que os seios se pudessem melhor ver a eles próprios, empurrou-os contra o espelho, pressionando-os e massajou a barriga e as ancas até adquirem a cor das bandeiras revolucionárias e o calor necessário à passagem imediata a outro tipo de acção.

O espelho via-a fechar os olhos num torpor solitário. O espelho, observador e não participante, perdeu o privilégio de olhar e ver, quando ela optou por se deitar no chão. Esticou-se, como se pretendesse agarrar com os dedos das mãos e dos pés, em simultâneo, algo ou alguém que ali não estava. Sentia uma grande serenidade e não pensava que pudesse ser interrompida naquele toque de felicidade. Continuou calmamente, certa que seria capaz de percorrer, senão todas, pelo menos algumas cores do arco-irís. O corpo fazia pressão sobre o chão duro que lhe endireitava as costas, que bronzeara enquanto as dava a comer a quem as olhava, na areia quente da praia do fim de tarde, que visitara sózinha, para variar.

Virou-se de barriga para baixo, passou um braço para debaixo do corpo, deixando-o acariciar o baixo ventre, enquanto molhava, à vez, com a língua brincalhona os dedos da outra mão, cuja palma lhe ia pressionando o queixo.

Levantou a cabeça e concentrou-se no vidro que, transparente, lhe levou os olhos à varanda em frente, dando-lhe a visão de um cigarro aceso, duma boca a fumegar e dum corpo grande, cuja cabeça estava virada na sua direcção.

Não se mexeu um milimetro. Não respirou mais depressa, não abandonou as intenções de continuar. Decidiu convidar e partilhar.

Olhou ostensivamente; a resposta veio com o atirar do que restava do cigarro, sem ver para onde caia, seguido de um salto para a varanda vizinha e depois para a sua própria varanda.

Do outro lado do vidro, pernas abertas, bem afastadas, a tapar o sol que a cobria, olhar de lobo em frente à vitima que, presa no brilho do olhar da fera, aguarda ser devorada.

Ninguém abriu a porta da varanda. A figura continuava, com baba a escorrer-lhe da boca, como um esfomeado em frente à montra de um restaurante, olhando para um suculento repasto que, ainda por cima, não estava a alimentar ninguém.

Ela continuava, agora já de costas novamente e com a cabeça completamente revirada para o poder continuar a ver. Com gestos rápidos, à muito aprendidos, mas não esquecidos, molhava os dedos que molhavam os cumes dos seios, com os seus próprios fluídos que oleavam a entrada secreta transformada em portão principal, engalanada de fios mais ou menos retorcidos, qual cortina que agora se afastava para permitir abrir e, como que inaugurar um maravilhoso espaço público.

O pote de mel estava ali e o urso ansiava por o alcançar. Doido, contorcia-se a um ritmo só dele, comandado por uma música imaginária, que exigia que o seu corpo esgrimisse.

Ficaram como convinha aos jogadores: um de cada lado.



Lena


Impressão Digital Cereza às 00:14
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37 comentários:
De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 10:10
E qual não é o meu espanto quando hoje de manhã abro o blog e dou de caras com este texto da Lena... fantástico! Não me recordo de ter lido algum texto mais arrojado que este aqui no blog. Parabéns, Lena, pela forma e pelo conteúdo. Abordas os temas masturbação, voyeurismo e exibicionismo, num misto de receio e prazer. Tens uma linguagem deliciosa em que todos os pormenores estão implícitos e consegues prender a atenção do leitor. Parabéns pelo texto e pela iniciativa pioneira! Gostei muito!Safira
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(mailto:ana.f.ferreira@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 10:47
Safira, tal como te dizia ali do outro lado, não me apetece nada comentar este post, por várias razões, mas sobretudo por uma, mas essa nem é para aqui chamada. Este texto aparece como que por coincidência, pois ainda há dias atrás, no canal UJ, estivemos a discutir esta coisa de voeuyrismo vs exibicionismo. Pensei em escrever algo sobre o assunto, mas a Lena antecipou-se. Penso que pecaste por modéstia, Lena, eu teria sido mais atrevida! Agora diz-me uma coisa, Lena, como é que o gaijo conseguiu saltar da varanda da frente para aquela ao lado da varanda da nossa protagonista???? Starry-Night
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(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 11:03
Starry, Ele saltou da varanda da frente para a outra virando homem aranha, ihihihihihihluadourada--
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(mailto:ermelinda@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 11:28
Lena não escrevi introdução de proposito no teu texto, porque queria comenta-lo aqui... este foi sem duvida, um dos textos mais interessantes e mais bonitos que publiquei no UJ. É um texto envolvido de um grande erotismo, sem "roçar" o banal e a vulgaridade... e aí é que está a mestria num conto deste estilo.
A linguagem é simples, directa e poetica... transportando-nos com grande facilidade até ao palco onde tudo se passa! Os meus snceros parabens!!!!!
jokacereza
(http://bbb.blogs.sapo.pt/)
(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 12:44
Lena!! Fantástico o texto....Aqui sim sabe bem ler nas entrelinhas.
Está escrito de uma maneira sfot,e com toda a carga erótica bem delineada.
Deixa permear e transmite a sensação quase real de estar no local..
Parabéns!!:)*

marta
</a>
(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 12:46
Cá para mim, há muita gente a pensar em saltar de varanda em varanda! :PStarry-Night
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(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 12:46
Desculpem mas n posso comentar.... tenho o meu espelho à olhar para mim.... e o meu vizinho já acendeu o cigarro.... PatanisKa
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(mailto:sissacc@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 13:26
Intenso!Tex
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(mailto:texazinha@iol.pt)


De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 15:08
Se por acaso acham que não fizeram já suficiente mal ao blog, continuem... porque sinceramente quem sou eu pra dizer seja o que for!
Só sei que desde o "tal" post, muita gente que gosto não comenta, ou vem quase a custo...
O meu obrigada... aos iluminados! Sinceramente esgotou-se a paciencia de vez! Lena mais uma vez parabens pelo excelente texto!cereza
(http://bbb.blogs.sapo.pt/)
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De Selvagem Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 15:22
Iluminados outra vez?! Cereza, please, apaga a luz, estavamos tão bem às escuras... e deixa a porta aberta, por favor. Eles vêm aí! *Safira
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(mailto:ana.f.ferreira@hotail.com)


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