Sábado, 5 de Novembro de 2005

Duas cidades!

Um texto do jornal Expresso enviado pela Tex. Um artigo discutível!</em>

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(Cidade do Porto)


AMO o Porto, mas esta paixão deixa-me espaço para gostar muito de Lisboa.
Depois de um fim de tarde no miradouro da Graça, ninguém no seu perfeito juízo pode negar que Lisboa é uma das mais belas cidades do mundo.
São cidades diferentes. É fácil gostar de Lisboa logo à primeira vista. O Porto tem de se aprender a gostar.
As cidades são diferentes, mas ainda mais diferentes são as pessoas que as habitam.

No Premier, o «health club» que frequentava no Porto, quem chega solta um sonoro bom-dia, logo correspondido pelos que lá estão. As pessoas circulam nuas pelo balneário e conversam umas com as outras, sobre tudo e nada - a bola, a bolsa, os casos do dia. Toda a gente se conhece pelo nome e profissão. Ficámos todos satisfeitos e orgulhosos
quando a recepcionista Conceição acabou o curso de Direito.

Trouxe para Lisboa as maneiras do Porto, mas tive de me adaptar, porque não gosto de dar nas vistas - prefiro disfarçar-me na paisagem. Deixei de dar os bons-dias à chegada ao Holmes Place, porque me fartei deles fazerem ricochete nos armários - ninguém mos devolvia. E para evitar olhares desaprovadores ando pelo balneário com a toalha enrolada à cintura.

Gosto muito de Lisboa mas não gosto de algumas pessoas que a habitam.
Não gosto das pessoas que mal sabem que sou do Porto desatam a tentar imitar de uma forma grotesca a pronúncia do Norte, entremeando uns caragos com uns ditongos ditos à moda galaico-portuguesa. Abomino a ignorância dos que se julgam sem sotaque e tomam a sua adocicada e arredondada pronúncia lisboeta como o cânone da língua, que deve parte da sua riqueza às diferentes maneiras como é falada nas mais variadas latitudes e longitudes.

Gosto muito de Lisboa mas não gosto de alguns políticos que a habitam.
Não gosto de um Jorge Sampaio, cujas regras de educação lhe permitiram usar o discurso de inauguração da Casa da Música para criticar os «atrasos da obra» e a «derrapagem dos custos». Não me lembro de alguém ter criticado os «atrasos na obra» e a «derrapagem nos custos» nos discursos de inauguração do magnífico Centro Cultural de Belém ou da fantástica Expo-98.

Não gosto de um ministro Mário Lino, cujo código de boas maneiras lhe permitiu usar o discurso de inauguração de uma nova linha do Metro do Porto para ameaçar congelar a expansão da rede, devido aos «atrasos na obra» e à «derrapagem dos custos». Não me lembro de alguém ter ameaçado congelar a expansão do Metro de Lisboa na sequência dos escandalosos «atrasos na obra» do Metro no Terreiro do Paço ou da enorme «derrapagem nos custos» da estação Baixa/Chiado.

Não gosto de um ministro Manuel Pinho, cujos princípios éticos são largos ao ponto de abençoar um Prime que habilmente permite o uso de fundos comunitários em Lisboa, a mais rica de todas as regiões ibéricas (o Porto está em 27º lugar), de acordo com a UE.
É por causa de atitudes como estas que Portugal continua a parecer um bilhar que descai sempre para um só buraco - a capital. O grito de raiva «Nós só queremos Lisboa a arder» é a expressão (grosseira) da revolta de quem se sente discriminado. A única vacina eficaz contra esta raiva é corrigir as assimetrias que desequilibram o país.


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(Cidade de Lisboa)


in: Expresso, caderno Economia & Internacional, 13-08-2005


Enviado pela Tex



Impressão Digital Cereza às 14:18
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24 comentários:
De Selvagem Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 15:11
Nasci em Lisboa. É a minha terra... O que é isso "da minha terra"?... Nasci neste planeta é dele que gosto e temos de gostar. A minha terra é a minha Terra. Nunca gostei de bairrismos, nem de clubismos, nem de lobizinhos, nem de nada que possa encurtar os horizontes. Em todo lado há o bom e o mau. O bom ou o mau, não é característica de local, raça ou credo. Saber conviver com todos é que pode ser uma virtude. Aceitar as diferenças e respeitá-las.flyman
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(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 15:19
Já agora... Lisboa, a zona mais rica?... Lá está... a riqueza está muito mal distribuida... todos os dias vejo-lhe a outra face da moeda... estatísticas que saiem sabe-se lá de onde... Na Europa vêm-me logo à cabeça umas quantas cidades onde a qualidade de vida é bem superior. E não estou a falar de capitais. Estou a falar de cidadezinhas de província. Estatísticas... :|flyman
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(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 16:39
Flyman, Home is where the heart is!Starry-Night
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(mailto:martinique@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 18:48
Lisboa e Porto, Madrid e Barcelona (para ficar na Ibéria): guerra dos sexos… sexo dos anjos… /// O texto é ambíguo e dúbio, logo algo falacioso. As cidades de Lisboa e do Porto são pretextos de que o autor se serve para criticar atitudes verbais de pessoas que não coexistiram politicamente nos momentos referidos, mesmo sendo verdade o que escreve. Mas para ser verdade absoluta os autores dos discursos teriam que ter estado na mesma condição, de ministro ou outras, nas situações comparadas. Que o dinheiro fica em Lisboa? O dinheiro público sim… e o privado…? Ah… mas uma coisa não tem a ver com a outra… certo? /// Quanto às pessoas… maravilhosas, medianas e más em todos os lugares. Alguém terá dúvidas? /// Quanto aos sotaques, são marcas de quem somos e não exactamente do local onde nascemos, pois também os gatos nascem (…ou nasciam…) dentro dos fornos a lenha e isso não fazia deles pãezinhos! O sotaque é uma riqueza que me contagia e cuja diferença de timbre, tonalidade, acentuação e até de velocidade, me deixa maravilhada. /// A entrada em Lisboa através da ponte sobre o Tejo é magnífica, soberba mesmo. O Porto observado de Gaia, com a foz ao fundo é avassalador. E eu, eu sou alentejana. Lena
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(mailto:bonecarussa@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 19:26
Por muita razão que o senhor tenha comparando as duas cidades maiores do país, esquece-se que são essas duas cidades que absorvem a maior parte dos investimentos subsidiados (quer pela UE quer pelo (des)governo) ou privados. As assimetrias são muito mais notorias se viajarmos uns kilometros para o interior. Aí sim, a "mesa de bilhar" descai tanto que se pode como rampa de lançamento de projecteis. P.S.- Sou nado, criado e resido no Portoformasdolhar
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(mailto:formasdolhar@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 19:45
Fiz meu este lugar, tal como os lisboetas … provavelmente, como se daqui do ventre tivesse saído, inimaginável outrora. Lá longe (Benguela).
Pólo regional multifacetado, “LISBOA” é uma realidade que ardentemente amo e que a chama o tempo um dia apagará.
No mundo não é famosa, jamais será a maior e muito menos a melhor. Cá dentro…é encantadora, amorosa, provocante e atractiva.
Do seu seio emana uma comunidade heterogéneo, oriunda sabe-se lá donde, que lhe concede uma natureza tão distinta, cujos defeitos e virtudes são cantados através do fado pelos poetas, cantadores e cantadeiras. È uma gente versátil, madura, dedicada e delicada. Sinto em cada momento que Lisboa trabalha cantando…

luadourada--
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(mailto:ermelionda_1955@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 20:16
Eu já conhecia o texto e confesso que quando o li não me consegui impedir de me rir, tal como me rio cada vez que sou confrontada com situações que me revelam os contornos incoerentes e descabidos daquela "rivalidade" sem sentido que se verifica entre norte e sul, "murcões" e "mouros". Paralelamente, surge-me sempre a lembrança dos resultados de certo referendo que teve lugar há anos atrás em que os portugueses votaram contra a regionalização. Regionalismo, na sua essência, é um sistema em que os interesses regionais são postos à frente dos interesses nacionais. Os portugueses, do norte, do centro e do sul, não quiseram que os interesses, do Alentejo e dos alentejanos por exemplo, fossem colocados antes dos interesses de Portugal e dos portugueses num todo, independentemente da sua naturalidade. A mim, na minha qualidade de residente no estrangeiro (só sou considerada residente em Portugal para efeitos fiscais, ou seja para efeitos de pagamento de uma bruta taxa de IRS), não me foi dada a oportunidade de votar, mas se tivesse tido direito a esse voto, é mais certo do que sabido que votaria NÃO. Sou toda contra tudo que divida ou possa vir a dividir o que deve permanecer unido! Não existem cidades filhas e cidades enteadas! Existem sim governantes que nos deveríamos envergonhar de ter elegido. Fomos nós que os “metemos” no alto do poleiro de onde nos lixam (com F grande), ou não fomos? Ora, quem tem o poder de meter, também tem o de tirar. Assim sendo, pergunto eu, porque não se tira?

PS: Ah...e viva o Alentejo, Lena, o nosso lindo, belo e maravilhoso Alentejo!
Starry-Night
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(mailto:martinique@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 22:36
Spiced one, estás a propor um coup d'etat? (Estes permanecem lá pelo menos mais 3 anitos e meio, pelo menos pelas vias legais). E golpes de estado...dificilmente melhoram alguma coisa.formasdolhar
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(mailto:formasdolhar@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 23:32
Achei o texto muito interessante. Eu nasci, estudei e vivi no Porto até aos 34 anos. Depois, claro, emigrei para a minha aldeia pós-natal, onde os engarrafamentos de trânsito chegam a juntar 3 e até 4 carros nos cruzamentos e onde me dedico ao honroso ofício da tricotagem com muitas agulhas. Mas, ainda assim, continuo a ter aquela coisa cá dentro que faz de mim um tripeiro. Mas, como diz o Flyman, o que é mesmo a nossa terra? Será, como diz a Starry, onde está o nosso coração? Sei que, se começarmos a falar de assimetrias, eu nem sequer me desloco do Porto até Lisboa. Basta-me comparar a Marechal Gomes da Costa com o Bairro de Contumil (ambos no Porto). Se vamos falar de má educação, não vou sair do Porto. Basta-me pensar nos modos indelicados com que somos atendidos pela pessoa no guichet de uma qualquer entidade de administração publica, ali mesmo, no Porto, ou nos péssimos modos ao volante, também, com que somos confrontados, por exemplo, na Rotunda da Boavista. Se formos pensar nas verbas astronómicas que, por comparação com o resto do país, são utilizadas em Lisboa, basta comparar as que são utilizadas em prol do Porto com as que o são na totalidade de qualquer distrito a norte do Douro, como diz o formas, nomeadamente os do interior. Ainda nem me esqueci do acidente na Ponte de Entre-os-Rios, vejam só! Enfim, para mim, comparar o Porto com Lisboa, em qualquer dos casos, é pura perda de tempo, demagógico e um falso problema. Cada uma das cidades terá, no coração de cada um, o seu lugar, cada uma das cidades tem o seu quê de carismático e uma beleza particular e fundamental. Cabe a cada lisboeta e a cada tripeiro pugnar pelos interesses da sua cidade, obviamente. Já agora, Starry, regionalizar, tal como esteve em questão, e tal como foi muito mal apresentado, não tem nada a ver com divisão. Nem tem nada a ver com a dispersão dos centros de decisão política e administrativa de um país. Regionalização, terá tudo a ver com a atribuição de competências de gestão orçamental, financeira e territorial às diversas regiões. Apenas no mais insano Santanismo se disseminam secretarias de estado directamente dependentes, para o seu funcionamento, de alguma proximidade territorial, pelos quatro cantos de um país que, embora pequeno, não tem uma economia que se compadeça com tais desperdícios. Posto tudo isto, asseguro-vos que, obviamente, do meu ponto de vista, a melhor coisa que tem Lisboa é a auto-estrada para o Porto. Um abraço, o AnjoMaslow
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(mailto:manuel_azevedo@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 6 de Novembro de 2005 às 10:36
A minha cidade é aquela com que me enterneço a olhar os mais ínfimos pormenores e me transporta no tempo. Olho a alameda e vejo-a um imenso relvado ladeado de canteiros de gladíolos... subo a Guerra Junqueiro e delicio-me com a montra de brinquedos... ao lado monto o cavalinho de pau e tiro uma foto com o Pai Natal... na Praça de Londres brinco nas portas giratórias do café Londres e almoço na Mexicana, esperando ansiosamente que a minha mãe me deixe ir brincar com os peixinhos do lago... à noite percorro as ruas da baixa e penso que todas aquelas iluminações foram ali postas só para mim... Desço a alameda da reitoria eufórica porque acabei de ver o meu nome nos vidros a anunciar que entrei no curso que escolhi... Atravesso a Rua da Escola Politécnica e tomo o pequeno-almoço na Cister antes de ir para as aulas... Desço a São Bento e entro no palácio para mais uma noitada de discussão do Orçamento do Estado e a seguir passar pelo cacau da Ribeira... Subo a Calçada Bento da Rocha Cabral e entro no belo edifício do Instituto com o mesmo nome, reparando em mais um pormenor dos maravilhosos vitrais que me acolhem... No Parque das Nações sento-me com as minhas filhas em frente ao aquário central e respondo-lhes às perguntas... Todas as cidades são bonitas, mas... a minha é única! ;)alic
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(mailto:mceciliabpm@hotmail.com)


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