Terça-feira, 1 de Novembro de 2005

Lua Dourada!

A nossa querida Lua etá a organizar o nosso almoço de Natal com todo o carinho... A Lena dedicou-lhe um texto mais que merecido!


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As noites estavam quentes. Todos os momentos passados debaixo do telhado estrelado eram preciosos e únicos. O ar cheirava a perfumes caros e envolventes. O vento tinha emigrado para outras paragens.



Lá em cima, a sósia, contemplava-a, silenciosa.



Parecia estar muito quieta, mas movia-se. Porém, não tanto como ela. Os movimentos rápidos e o andar dum lado para outro, eram os gases raros misturados com o oxigénio do stress. Vivia. O descanso está marcado para a eternidade, imediatamente a seguir à morte. O agora, o já, o aqui, é dançar, é correr, é saltar, é viver. É amar também. Pelo menos às vezes.



A outra lá em cima, olhava-a.



Acreditava que só a via a ela, que lhe pertencia e não se negava. Acontece que ninguém tinha visto o titulo de registo de propriedade e era pensamento comum que pertencia a quem a olhasse. E quem a ela dirigia o seu olhar via-a branca, ora redonda ora em quartos, minguante ou crescente, à vez; a nova, ninguém a via. Chegava-lhe a menstruação e a Lua escondia-se para que não vissem as manchas vermelhas a macular a sua alma.



A Lua, a da Terra, era branca também. Calhara assim, podia ser uma mulata quente, uma oriental exótica, mas era uma branca afrodisíaca.



Tudo nela inspirava olhares a que desejos alheios, temerosos que os olhos mentissem, convidavam à confirmação através das mãos que, como toda a gente sabe, também vêem.



O facto de ser assim já lhe custara alguns dissabores.



O facto de ser assim já lhe propiciara algumas noites, dias, tardes, manhãs, madrugadas, entardeceres inesquecíveis.



A vida é assim. Ganhar, perder, trocar, partilhar. É assim a vida.



Adorava ver a expressão dos casuais amantes e comprazia-se dizendo a verdade, levando-os a pensar que mentia para se esconder:



-Chamo-me Lua.



As reacções iam desde o esbugalhar de olhos acompanhados do silêncio de quem não se interessa por nomes, até interjeições de admiração, forçadas ou não, e a expressões várias:



-E eu sou o Sol e vou aquecer-te como nunca.



E ela obrigava-o a derreter-se.



Ou então:
-Mostra-me o Mar da Tranquilidade



E ela mostrava o do desassossego.



Ou então:
-Finalmente vou ver a face oculta da Lua



E ela fazia-o viajar, às escuras, por montes e vales, obrigando-o a cair e a levantar-se o mais rapidamente que ele conseguia.



Lua. Assim se chamava.



Um dia beijara uma mulher, mas não avançara para além do interior da boca feminina que se lhe oferecia. A tonalidade do sabor não lhe arrepiara a pele, o contacto não lhe impôs o esplendor de que se rodeava quando fazia o mesmo com um homem.



Homens. Era a sua especialidade. Consubstanciava em si o efeito da Lua sobre as marés. Os homens eram as suas marés. Iam e vinham. Subiam e desciam. Ela, Lua, viajava na maré alta dos homens, trocando-os e substituindo-os quando vazavam.



Nunca tivera um namorado. Nunca se apaixonara. Sentia-se bem no seu papel de gueixa do mundo, gueixa da ocasião. E ocasiões nunca perdera nenhuma. As suas próprias marés levavam-na a ser ora calma ora inquieta, irreverente ou submissa, mulher ou menina, meretriz ou virgem, ansiosa ou paciente. Sabia ser um catálogo de emoções e sensações. Os seus impulsos sexuais estavam permanentemente activados e não requeriam qualquer motor.



Quando o viu, pensou que era mais um. Igual nas igualdades. Diferente nas diferenças que caracterizam qualquer pessoa.



Olhou-a e viu-a, mas não se aproximou. Não era caso raro, era um caso único.



Decidiu segui-lo, só, sem provocações.



Andou devagar, depressa, correu, parou. Sempre a seguir quem a olhava deliberadamente, desafiando-a. Parou definitivamente, junto ao mar e esperou por ela. Aproximou-se.



-Quer jantar comigo?



Nunca ninguém antes a convidara para jantar. Aceitava sempre uma experiência nova e disse que sim.



O vinho era bom, o comer não o provou. A expectativa era grande. Ele olhava-a em silêncio e em silêncio se foi embora. Secundou-o e viu o fumo do seu cigarro do outro lado da estrada chamando-a. Atravessou a rua com passos largos e a preocupação de não ser atropelada, fez com que deixasse de olhar e voltou a perdê-lo. Finalmente agarrou-o. Primeiro com o olhar depois com as mãos. Olhos nos olhos. O silêncio estava cheio de perguntas: quem és, o que queres, o que estás aqui a fazer.



A resposta, sonora, fez-se ouvir:



-Eu sou o satélite da Lua, o teu anjo da guarda A tua protecção fez parte das minhas tarefas e nunca me viste até agora porque acabei de realizar o meu mais secreto desejo: vou tomar o teu lugar. Vim substituir-te. Vim usufruir dos prazeres que foram teus até agora. Tens que voltar, aguardam-te na face oculta da Lua.



Pensou rapidamente: a Lua não tem satélites. Pois não. Devido a essa inequívoca realidade demonstrada e confirmada pela ciência, ele não deveria existir. Não lhe passou pela cabeça que mentia. Desprendeu-se do olhar e refugiou-se no calor da noite que a convidava a desfazer-se da roupa que a tapava.



Quem era aquela enigmática personagem, porque a seguia e principalmente e acima de tudo, porque não se deixara deslumbrar?



Apeteceu-lhe subir a uma árvore e esperar, como um gato. Habituada a satisfazer os seus mais pequenos desejos, trepou e sentou-se num enorme galho. Pessoas passavam cá em baixo.



Começou a ter sono. Pensou que ia cair e estranhamente não se importou. Deixou de ver. Tudo estava preto, negro, escuro, povoado de minúsculos pontinhos brilhantes.



Era a vista que se tinha na face oculta da Lua.



Lena




Impressão Digital Cereza às 00:46
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26 comentários:
De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 02:49
O oculto exerce uma grande atraçao sobre nós. Beijinhos e ate pra semanaVanessa
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(mailto:mina_aeternus@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 05:24
A Lua .. é tramada .. anda de quarto em quarto!!! Não confio nela ! ;-))maria
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(mailto:ola_cuscas@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 09:18
a lua... é fantástica.. é agradável contempla-la, a sua beleza é indiscritivel. foi bom ler-te Lena. ***devil_girl
(http://..)
(mailto:joana.patrici@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 10:32
Lua... Mágica e feiticeira... Amiga, companheira e confidente... Bela, seja de noite ou dia... existem muitas luas, mas nenhuma é bonita como a que o Urban possui, ela é meiga, carinhosa e amiga... Lua, este texto a ti é mais que merecido... OBRIGADO por seres a AMIGA que tens sido... continua a ser assim que acredita, nos farás sempre sorrir... jokas e Lena, mais uma vez, obrigado tambem a ti pelas tuas belas palavras... ;)Criador_Sonhos
(http://criadorsonhos.blogspot.com)
(mailto:criadorsonhos@gmail.com)


De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 11:01
É com o sol que vivo,e com a lua que desabafo...Um beijo para ti luadourada,que esse brilho se mantenha sempreeeeeee!!Foi bonito de ver Lena,este momento de partilha...E Cereza!!!O Sr do cabelo vermelho;)P(o ultimo concerto que vi no pavilhão de Cascais,ai!ai!*suspiro)marta
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(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 11:14
Hoje é lua nova... Assim é mais fácil imaginar o outro lado da Lua, o oculto, que estimula sempre o nosso fascínio pelo desconhecido... Um beijinho para Lua. :)flyman
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(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 11:37
Luíta, um beijo enorme, mulher! Espero que homenagens que o são e também aquelas que ainda o vão ser, não mudem absolutamente nada. No próximo dia 10, aconchegados pela parrilhada de peixe, outra vez, compartilharemos os risos e as conversas, as provocações e a alegria de nos sentirmos uma tribo, desta vez contigo e com a Driade a puxar toda a carruagem. Eu vou lá. Quanto ao texto, não percebi nada. O AnjoMaslow
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(mailto:manuel_azevedo@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 12:23
Oh lena, que bonito! Faço minhas as palavras que escreveste neste texto onde dás a conhecer a misteriosa outra face da lua; aquela que permanece sempre às escuras e só é entendida por quem tiver a felicidade de entrar no seu canto polar, sempre pronta para abraçar as estrelas e iluminar as suas almas com a luz dourada, a força e o seu simples saber. E é realmente à noite que, por uma pequena "janela" vemos aqui a lua dourada no seu hábito de festa, calada, observando, muitas vezes sem soltar uma única palavra e quando de repente confrontada eleva finalmente a voz e o tempo das histórias começa; daquelas histórias cheias de doçura. É me impossível não te amar lua dourada.. É me impossivel não te amar...morgaine
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(mailto:lab_marta@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 12:36
Um texto cheio de ocultas mensagens, para diversas interpretações que cada um lhe dará, conforme o seu estado de espírito. Quando se escreve escolhem-se palavras, o significado que se propõem transmitir, fica muitas vezes apenas com a pessoa que as escreve, cabe-nos a nós que as lemos seguirmos a nossa linha de pensamentos. Gosto da maneira como escreves :). Um grande beijão para ti Luadourada :) uma homenagem merecida com um texto magnífico!!!!!^Erina^
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(mailto:paula_m_sousa@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 12:49
Anyone who ever held you/Would tell you the way I'm feeling/Anyone who ever wanted you/Would try to tell you what I feel inside/The only thing i ever wanted/was the feeling that you ain't faking... e poderia continuar a escrever a letra desta canção, pois não me canso de a ouvir... :)^Erina^
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(mailto:paula_m_sousa@hotmail.com)


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