Segunda-feira, 24 de Outubro de 2005

A vida real

Não é apenas um texto, ou um romance... é uma história de vida.


080_6540157~The-Kiss copy.jpg


Invoco um sonho e deixo-me levar pela sua aparência, anseio por um destino e deixo-me morrer na subtileza.
Com os olhos vazios, passo algum tempo a sobrevoar o conhecimento da escuridão. Como uma criança nascida na chuva, condeno-me a ficar para sempre gelada por dentro.



Talvez me sinta amada como nunca o fui. Quando te imagino a beijar os meus lábios e poderes finalmente amar-me também, quando desejo fazer parte de todos os sorrisos e secar todas as lágrimas, o meu corpo fica limitado à dor que afinal me abraça e sei que não posso continuar a hesitar. Sabes bem que dei todo o meu ser, dei tudo de mim, fiz o impossível, que era acreditar no possível, poder amar-te para sempre com todas as minhas forças, esperar um novo dia com a certeza de te encontrar.



O silêncio, contudo, tomou conta de mim.
Não vale a pena contar como nos conhecemos, basta dizer que nunca dois olhos chegaram tao fundo como naquele dia… Depois de uma série de jogos acabamos por nos render. Sabes o que mais gostei? Os nossos olhares compreendiam-se, as mãos sabiam por onde, como e quando andar. Ambos sabiamos (e sabemos) que não há no mundo outros seres capazes de nos completar como nós nos completavamos. Há um olhar teu que nunca esquecerei… fez-me sentir viva, amada e desejada. Claro que a seguir a tanta paixao vem a decadencia…



Estou certa de que nenhum de nós conhece agora o sol, sinto-me retida na sombra, não deixes crescer em mim o ódio de te querer ver de novo, sei lá para quê...
Morri no instante em que pensei ter começado a viver, porque não era possível continuar vazia por dentro.
Compreendi a causa do nosso afastamento. Eu sei que me estava a desviar do caminho desejado pela sociedade, mas será que o que sentiamos um pelo outro não valia a pena? Agora que não te vejo, olho para dentro de mim e é como se encontrasse cicatrizes do nosso amor, pedaços de mim e de ti, dantes ligados, agora sem rumo no meu coração.



Chegamos a um ponto onde praticamente nao falavamos. Mensagens que não eram respondidas, telefonemas não atendidos, cartas lidas com dor mas nunca respondidas… Sei que também sofreste com a tua decisão, mas a dor que senti naquela altura era de morte. Passava os meus dias com o pensamento “É noite e não sei onde estás. Queria ter-te a meu lado...”



Dois anos passaram (como é possível que a minha vida tenha estancado durante esse tempo?), foram tempos de loucura em que nunca imaginei que um ser humano pudesse sofrer tanto. Por vezes dizias-me uma ou outra palavra tentando tranquilizar-me. A minha resposta era sempre a mesma “Como pode estar tudo bem se estou sem ti, aqui nesta casa onde não queres entrar, alimentada pela esperança de te encontrar e, apesar disso, vencida pela saudade de te ter perdido.”



Mais tarde descobri o motivo para me teres afastado de ti… Foste pelo caminho fácil, tornaste-te traficante, dos pequenos, quase por brincadeira, mas sabias que não era coisa de miudos e nunca me quiseste perto nem me quiseste contra. Mais meses passaram até que a minha suspeita foi confirmada. Deixaste de me esconder essa tua faceta e resolveste levar-me ao centro de onde tudo acontecia. Contaste-me tudo o que se tinha passado nesses anos (que foram anos de vida perdidos e anos de dor ganhos) e mostraste-me mesmo como tudo era.


Ao fim de tanto tempo voltei a olhar esses teus olhos, que apesar de mais baços ainda deixavam transparecer todo o carinho que por mim tens. Confesso que quando me fui embora chorava como uma perdida. Podia aceitar muitas outras histórias, mas aquela não podia estar a contecer. Como se nao bastasse voltaste a fazer de mim a tua confidente. Nem imaginas o quanto eu sofria quando me dizias que tinhas estado outra vez detido. Coisas leves, mas que marcam a tua vida.



Não aguentei mais e contei a uma pessoa da tua família. Desde que conheci a tua mãe que soube que tinhas ali uma amiga, mas que tu não querias confiar (talvez por saberes o quanto ela também iria sofrer). Quando contei fi-lo porque já não tinha forças para continuar a suportar sozinha aqueles teus segredos. Pensei que assim te poderia esquecer de vez, tirar-te da minha vida…



Todos os dias me interrogo se foi a decisão certa, se não teria sido mais corajoso e digno vencer o orgulho, domesticar a raiva e controlar o ciúme, renovar o meu amor por ti. Não fui capaz, talvez a outra que não tivesse gostado tanto de ti fosse mais fácil continuar, pôr-se em causa, modificar-se.



Mas aconteceu o que eu não estava à espera. A tua maior amiga pediu-me algum conforto e eu não fui capaz de lhe dizer que não. Claro que disto nunca soubeste… Quando a tua família toda ficou a saber pensei que me ias odiar com toda a tua força. Mas não! Apenas disseste que eu te tinha traido, mas que não me conseguias odiar nem me desejar nenhum mal.



Os anos passam e a nossa história parece nunca ter fim, tu não me deixas esquecer-te e talvez eu não queira que me esqueças… Os anos passam e eu não me consigo apaixonar por mais ninguém… Os anos passam e eu tenho a certeza que nunca ninguém te irá amar como eu amei e que nunca serei amada como fui. Mas mesmo assim gostava de voltar a sentir o calor da paixão e o conforto de um olhar…



A dúvida terrível em que vivo, o dilema que me assalta todos os dias é afinal saber se tudo poderia ter corrido de outra forma, se apesar de tudo o que se passou conservaste alguma ternura por mim...
Percorro a cidade e vejo-te em cada esquina....
De tudo o que em ti amei e não me deste, ficou só agora a cor dos teus olhos, essa luz que me iluminará para sempre...


_Eu_



Impressão Digital Cereza às 20:28
link do post | Rugir | Adicionar aos Favoritos
|
27 comentários:
De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 08:27
_eu_, muita força para ti, acredito que é dificil perder-se aqueles quem mais gostamos, mas a força que temos dentro de nós é inexplicável e tu vais conseguir passar por cima disso. ***devil_girl
(http://..)
(mailto:joana_ribeiro19@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 09:54
Parece-me que não perdeste, mas que ganhaste o que não querias... e ‘prémios’ dolorosos são pregos ferrugentos que nos inquinam, que lascam em vez de segurar, que fazem unir a dor em vez de a repartir para a apaziguar. /// Há situações e problemas que perante eles parecemos impotentes para fazer seja o que for... não é bem assim: ninguém nos resolve nada, mas ao partilharmos com os outros, como estás a fazer aqui, o peso parece fragmentar-se e tudo fica mais leve, menos opaco. Deixo aqui o meu ombro e o meu olhar. Dispõe deles. Lena
(http://jnsdjsd)
(mailto:Lena@lena.pt)


De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 10:19
Perante a dor fechamos-nos...mas no fundo há uma esperança,de que alguém nos consiga fazer sorrir outra vez....Quem melhor do que tu sabe o que vai dentro de ti?!...Deixo-te um abraço bem apertadito.marta
</a>
(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 11:48
Para além da qualidade da escrita, para além da história em si, para além da coragem de se mostrar desta forma, este é para mim, mais um daqueles textos que marcam a grande qualidade deste blog. Belíssimo momento. Profundo de sentimento. Profundo de significado. _Eu_, tudo de bom para ti! Obrigado pela partilha.flyman
</a>
(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 17:07
_Eu_, a mim afigura-se-me que encontraste e viveste o amor de uma vida. Encontraste, viveste e foste feliz, certo? Não durou para sempre, mas foi eterno enquanto durou! Tanto foi que continua assim presente em ti. Creio que é de te sentires grata, pois, minha querida _Eu_, amar e ser amado é assim uma coisa rara...O verdadeiro amor não morre! Quem amou um dia, amará sempre, mesmo que as voltas que a vida dá nos troque as voltas e nos leve por atalhos e caminhos que não conduzam aos braços do objecto do nosso amor!Starry-Night
</a>
(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 18:18
Amar, o amor, o fim .... muitas vezes pior que o fim de um amor é não nós não aceitarmos esse fim e convencermo-nos que ele ainda vai reacender e reviver, apesar de subsconscientente ja o termos dado como pretérito. Para todos os que ja sofreram com a perda de um grande amor deixo um grande poema de Neruda ........

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.\
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,\
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".\
O vento da noite gira no céu e canta.\

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.\
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.\
Em noites como esta tive-a em meus braços.\
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.\

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.\
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.\
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.\
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.\

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.\
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.\
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.\
A noite está estrelada e ela não está comigo.\

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.\
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.\
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.\
O meu coração procura-a, ela não está comigo.\

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.\
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.\
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.\
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.\

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.\
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.\
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.\
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.\

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,\
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.\
Embora seja a última dor que ela me causa,\
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.\

Shikote
</a>
(mailto:arturcb@gmail.com)


De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 20:34
A mim o que mais me sobressai n é a questao do grande amor aqui vivido. Sobressai a "coragem" de alguém que afastou a pessoa que amava só para ela tb n sofrer com o mau rumo que ele seguia e pelos vistos seguiu. Outra coisa é a anedonia, por depois n conseguir amar outra pessoa. Parece q ha laços q n foram cortados e ambos n sabem como o fazer.Vanessa
(http://triptofinland.blogspot.com)
(mailto:mina_aeternus@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 20:36
A dor, a dor… _eu_ , mais que o amor, menos que o amor, quanto pesa a dor? Não sabemos, mas a dor é aço e transportamo-la… porém, há a sempre a esperança da esperança que nos faz adormecer a pensar que amanhã… amanhã há-de ser melhor e se for pior, outro amanhã virá, cheio de renovada esperança. Para suportares e viveres esse calvário e teres a capacidade de o expressar dessa forma, é porque a calma também vive em ti. Alia-te a ela e mantém a esperança. Um abraço.Luadourada__
</a>
(mailto:ermelinda_1955@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 21:09
O amor foi afastado para evitar desvios do caminho desejado pela sociedade... será que vale alguma vez a pena desistirmos de viver ou procurar viver os nossos sonhos apenas porque a forma como eles se desenrolam fogem ao que é tido por e como normal/aceitável? Deus me perdoe se vocês não conseguirem, mas entre caminhar infeliz por toda uma vida pelo caminho visto pelos bons olhos duma sociedade prenhe de valores podres e completamente ultrapassados, eu preferiria correr feliz e despreocupada pelo meu trilho enquanto me sobrassem pernas para o fazer!Starry-Night
</a>
(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Outubro de 2005 às 01:02
"De tudo o que em ti amei e não me deste, ficou só agora a cor dos teus olhos, essa luz que me iluminará para sempre..." Um texto lindíssimo, uma declaração de um amor que aparentemente chegou ao fim...mas quando é realmente AMOR nunca acaba, e isso dói... também eu sofro por amar, por isso tanto me revi nestas linhas e tanto me tocaram as tuas palavras, por estar agora a conhecer esse falso "fim". Mas entre sofrer e nunca ter amado, escolho sofrer porque de outra forma nunca teria descoberto o que sinificava realmente "viver". Para ti, dedico-te algo de familiar: " Cold, cold water, surrounds me now... and all i've got, is your hand..."
Malquisto
(http://malquisto.blogs.sapo.pt)
(mailto:lostdog@sapo.pt)


Ah... Comenta-me