Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005

Casos Reais: Putas, Prostitutas (os) e Prostituição

Eu sempre soube que este texto do Abel seria polémico, pelo tema em si! Mas nunca pensei ler os comentários que li! Autênticos relatos na primeira pessoa. Fiquei inpressinada... impressionada no bom sentido, pela coragem, pela firmeza, e pela beleza dos relatos!
Abel, Otilia e _eu_ sinto-me extremamente orgulhosa em tê-los aqui no Urban Jungle! Para vocês um abraço do tamanho do mundo!


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Relato I


Quem escreveu isto não fui eu, foi a Lena que me convenceu e eu falei e ela escreveu como eu disse. Eu li tudo e quis que isto ficasse escrito. Não sei o que é um blog, já tinha vindo à internet com um dos meus bisnetos e agora li o que escreveram, quer o Abel quer os comentadores e a Lena explicou-me umas coisas que eu não percebi e gosto que se fale da minha vida.



Tenho 70 anos e sou prima da mãe da Lena. Fui puta durante 30 anos com carteira profissional. O Abel tem razão, havia carteira de saúde, mas não por nossa causa, e sim por causa dos clientes. A diferença entre puta e prostituta é a mesma entre conduzir um carro e guiar um carro, ou seja, não há diferença. Falo por mim. Sempre usei a palavra prostituta quando estava diante da polícia ou no médico. Entre nós e com os nossos homens éramos putas. Eu não tinha relações sexuais, isso é de há uma dúzia de anos.



Nós íamos p’ra cama com os homens, fazíamos os homens e quando estávamos mais à vontade umas com as outras fodiamos os homens. Ainda hoje moro na mesma zona onde sempre trabalhei, onde viveram os meus pais, que vendiam num mercado, onde vive a minha irmã que nunca foi puta. Eu sou casada, casei-me há 30 anos com um homem que conhecia a minha vida e que eu amo profundamente. Ele ajudou-me a mudar de emprego como se calhar os vossos homens e mulheres já os ajudaram a mudar de emprego também. Tenho a certeza que todos vocês têm uma profissão, como tem a minha filha, os meus netos e os meus bisnetos e eu também tinha, era o que eu sabia fazer. Os corredores e os jogadores de futebol não usam as pernas? Os artistas de circo não usam o corpo para se contorcerem? Eu usava o corpo para viver, usava o que normalmente temos tapado mas também as mãos e a boca e digo muitas vezes que hoje se usa a boca para fazer coisas horríveis e muito nojentas e não têm nada a ver com o que eu fazia.



Tinha clientes fixos como eu sou hoje cliente fixa do café da esquina. Não vejo diferença. Umas pessoas escrevem, outras dançam, outras percebem de informática e são craques nessas coisas. Eu fazia-os vir depressa para receber e esperar por outro. Muitas vezes era mãe, irmã, amiga, psicóloga, outras vezes era só para despejar. A polícia chateava de vez em quando mas era porque eram acusados de fazer pouco e então iam às putas. Esta expressão era utilizada porque nos chateavam e porque muitas vezes nos obrigavam a trabalhar sem nos pagar.



A minha filha é filha dum cliente que tive muitos anos e que a perfilhou. Não é fácil ser filha duma puta. No bairro, um das sete colinas de Lisboa, toda a gente se conhecia e uma era vendedeira, outras lavadeiras, eu sou do tempo das lavadeiras, outras eram mulhers a dias como se diz hoje, naquela altura, dizia-se que serviam, e até havia uma que trabalhava na construção civil. Na rua falávamos todas umas com as outras mas elas não queriam que as filhas brincassem com a minha. E eu ofendia-as. Dizia-lhes como eram os homens delas na cama e eles nem eram meus clientes.



Mas doía-me que não deixassem a miúda brincar e usava as armas que tinha. Elas eram as mulheres eu era a puta. Há ou havia mais diferença entre mulher e puta do que entre puta e prostituta. Eu trabalhei numa casa e na rua. Conheci o meu marido na cama como se calhar vocês conheceram os vossos nos sítios onde trabalham. Lembro-me de ver um filme onde o protagonista trabalhava com merda de elefante, era um filme cómico e ele até era doutor e analisava a merda como também analisam a nossa se estivermos doentes. É preciso pessoas para tudo. Tenho a quarta classe, sei ler e escrever, mas mal.



Os meus pais obrigaram-me e ainda bem a ir à escola, mas depois desisti porque era preciso arranjar dinheiro para comer. Acho que hoje há também muitas putas porque não querem fazer mais nada. É fácil ou pensam que é fácil. Vender prazer é esgotar o nosso prazer. Eu agradeço eternamente ao meu marido por me ter amado desde o primeiro instante, mais do que por me ter tirado da vida. É que eu ainda tenho prazer com ele.



Naquela altura não havia mais nada para fazer. Ou íamos p’ra cama com os homens ou passávamos fome. Também quero dizer que já havia homens que davam o cu e muitos. Mas aqueles que queriam mulher não queriam mais nada e os que queriam miúdos não iam às putas. Não havia concorrência. Isto foi um favor que eu fiz mas fico satisfeita de pessoas com cultura falarem de gente como eu.



Se eu pudesse mandar não havia putas, mas como há é como os buracos na estrada, caímos lá dentro mesmo que até desviemos o carro. Obrigada.



Otilia
@ outubro 12, 2005 09:30 PM


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Relato II


Realmente é um tema que dá muito para pensar e eu podia ficar horas a escrever sobre isso. A minha opiniao sobre o assunto nao vai ser dada agora, talvez ate nunca seja... apenas quero dizer que tenho uma pessoa de familia que é prostituta.



Falta de carinho, de dinheiro, de apoio? Nao! Teve tudo o que quis da vida, mesmo após de ter cometido erros gravissimos toda a familia continuou de bracos abertos para a receber de novo, ainda continua. alias, nunca ninguem a expulsou de casa. Abandonou um filho, entretanto engravidou de outro homem e abandonou de novo o outro filho. E depois é claro que eu fico sempre a pensar: teve a liberdade que quis, todo o apoio, nunca lhe faltou dinheiro, nem sequer para os vicios mais obscuros e entao porque fugir de alguem conhecido com alguem a ve nas ruas, porque abandonar duas criancas das quais nao tem noticias ha 7 anos? Há coisas na vida que nunca vamos compreender</p>

_eu_
@ outubro 12, 2005 03:05 PM




Impressão Digital Cereza às 00:14
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99 comentários:
De Selvagem Anónimo a 15 de Outubro de 2005 às 10:46
Eu gostava, que todos(os mais novos e mais antigos)(talvez melhor dizendo alguns), entendessem, que aqui, apenas somos....simplesmente sendo...falamos de coisas sérias, brincamos com elas, choramos , rimos, reflectimos ,e sobretudo aceitamos ,a brincadeira ,a reflexão ,o comentário feito mais a quente ,ou mais irreflectido .Porque isto é um blog ,porque nos conhecemos ,porque isto é vida .E não levem a mal ,qualquer coisa que tenha sido dita mais a quente ,ou em forma de brincadeira ,porque se assim não fosse ,talvez muitos de nós preferissem ler outras mil informações que todos têm por aí á mão de semear. Eu por mim falo...NUNCA aqui foram deitadas pérolas a porcos...acreditem!!! É o que acho!!(e se for para perdoar, que me perdoem por eu achar..)marta
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(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 15 de Outubro de 2005 às 11:24
Como a Cereza é uma grande melga :P e teimosa até dizer chega :PPP, fiz um zapping em diagonal pelos comentários, chegando à seguinte estatística até ao momento: a favor da prostituição, alguns fazendo até odes a esta profissão, está 1 pessoa (marta); a favor de aceitar a prostituição, porque ela existe e por acharem que é uma utopia querer erradicá-la, defendendo a liberdade sobre o corpo e nalguns casos sendo explícitos ao proporem dar condições a estas profissionais, contei 12 pessoas (abel_, Mina_ esta sim a 1ª a falar explicitamente de legalização logo no 3º comment, WG, Starry-Night, flyman, Safira, Maslow apesar de se assumir a favor :P, Mafalda, Fonz, mathiott, morgaine, blocas?); finalmente, o 3º grupo, aqueles que estão pura e simplesmente contra, foram 3-4 pessoas (Cereza, Pataniska, Tex, Vanessa?). Houve ainda um 4º grupo, que foram pessoas que no final não me atrevo a ser tão "definitivo" a colocar em nenhum dos grupos, pois não ficou de todo claro a sua posição, mesmo alguns que se fartaram de falar mas sempre sem deixaram clara a sua visão (Lena, _eu_, Shikote, Dríade, azeloM, constancinha, Louis_Phere, e outros tantos, muitos mesmo, que infelizmente se limitam a dar os parabéns ao blog e/ou um ou outro paineleiro). ///// Portanto, quando dizes no teu comentário que "há confusão nos comentários", sinceramente não te percebo. Visto que não esclareceste o significado disso, dou eu a minha interpretação: interpreto que dizes que as pessoas em geral são a favor da prostituição (e que até fazem odes). Ora, nada mais longe da verdade, vários paineleiros apenas manifestaram que aceitam esta profissão, fugindo à utopia pura, e respeitam quem por ela enveredou. Estou certo que nenhum dos 12 paineleiros que contei defenderia andarem por aí a fazer campanhas de recrutamento para essa profissão. ///// Espero ter explicado melhor ao que me referia. Mas, pergunto... de que raio valeu ter ido ver os comentários e ter feito a estatística, como insististe tanto? De nada! Não é isso que vai resolver a questão da prostituição (sim, há algo a resolver, porque a área cinzenta em que se encontra não é forma de estar em profissão alguma). Nadinha mesmo! Mas mesmo assim, e já que há legítimos objectivos de melhorar cada vez mais o blog e atingir projecção (pelo menos) nacional, convence aí o Guldan a colocar uma votação lol ///// Termino pedindo desde já antecipadamente desculpa se classifiquei de forma incorrecta a "posição" de algum paineleiro na estatística, nesse caso vão fazendo as correcções. Ou afinar a descrição dos "grupos".WG
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De Selvagem Anónimo a 15 de Outubro de 2005 às 12:42
WG mas para que raio interessa esta conversa? Dei a minha opinião ponto final... se leste deverias ter entendido o que quise dizer.E agora como até me custou a deixar dormir por causa disto... Quero pedir desculpa á Otilia, Abel, e Lena por alguns comentarios que foram tudo menos serios e sensatos! A Otilia, uma senhora de 70 anos, contou-nos a sua história de vida repleta de sofrimento. Dessa historia deveriamos aprender alguma coisa, e dar uma palavra de coragem, em vez de começar com certos devaneios e constatações ridiculas sobre a prostituição...isso deveria ter sido feito na minha opinião no post do Abel... mas aí a maioria resolveu falar sobre a pretensa ofensa aos paineleiros! A verdade é que o Abel tem razão, e o pior é que mostou isso. Por isso á Otilia a minhas sinceras desculpas se algum comentário foi menos correcto.
A historia da Otilia tocou-me profundamente, e confesso que gostara muito que ela um dia escrevesse algo aqui para nós. para ela, a lena e o abel, um abraço daqueles bem apertadinhos.
cereza
(http://bbb.blogs.sapo.pt/)
(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 15 de Outubro de 2005 às 13:49
Embora me tenha entristecido com algumas frases ou comentários menos convenientes sobre o tema e já tenha meditado sobre o dever ou não de trazê-lo à liça para discussão, quero decididamente respeitar e acreditar nas opiniões e convicções de cada um. Os resultados têm sido espectaculares e ultrapassaram largamente os meus objectivos e, penso, também os da Cereza. Doce Cereza! Exijo força da tua parte para continuarmos. É isto que engrandece este blog. Os meus parabéns e exijo também que não te crispes nem vale a pena chorarmos, só se for de alegria. Julgo que a água fria para estes paineleiros aconselhado pela banda GNR já é inócua. Já está mesmo a faltar um bom almoço suculento regado com um bom vinho. Apressemos a coisa pública.abel_
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De Selvagem Anónimo a 15 de Outubro de 2005 às 15:02
WG!! Eu não queria voltar aqui, mas como me apontaste o dedo, vou-te só pedir para imaginares esta situação: Tens 10/12 anos, tu, um filho teu, ou alguém que te esteja próximo, e vives numa rua onde moram, alguns dos clientes, que têm a coragem de parar nessas bermas de estrada, para terem sexo pagando. E vais supor que não havia prostituição, eles não tinham como descarregar, toda a ´´frustação`` acumulada. Pergunto: vivias descansado? Isto foi só para te mostrar porque bendigo as prostitutas…
Não depreendas daqui, que estou a favor da prostituição e que era capaz de fomentar a sua existência….Até porque não é necessário, ela existe e existirá sempre. O que é um facto é que há o bicho-homem, e se eles não existissem podes tu crer que o mundo seria bem melhor!!!Da próxima vez, vê se consegues ver para além daquilo que escrevo…não leves tudo á letra!!:)P
marta
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(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 15 de Outubro de 2005 às 21:22
Um dia fiquei sózinha com o meu filho. Dormia 4 horas por dia, fazia horas extraordinárias e nem por isso deixava de estar sempre com o meu filho. Passei fome, enquanto o Pai dele se banqueteava com as namoradas. Passei por situações humilhantes para alguns, mas nunca deixei o caminho que me tinha imposto seguir, o de caminhar de cabeça erguida sem receio de encontar algum cliente no meu dia a dia. Os anos passaram e sobrevivemos. A vida continua a não ser fácil, mas ele hoje é um Homem e ajuda em tudo. Não que me sirva de consolação mas sei que sou admirada por toda a família sobretudo da outra parte porque além de tudo fui, sou e serei sempre uma MULHER. Não foi preciso vender o meu corpo, tapando a cara para ganhar o sustento, para pagar escolas, roupas e sobretudo comida arriscando-me a contrair alguma doença . Quanfo olho para algumas das minhas "amigas" que apenas olhavam para o dinheiro fácil não lhes vejo nos olhos a mesma alegria que eu ainda conservo nos meus. Sou feliz com o que tenho e aprendi ainda a ser mais feliz com o que não pude ter. Desculpem, mas ser-se prostituta não é solução para outras soluções. Sou contra a prostuição feminina, assim como não concebo a masculina e MUITO MENOS a infantil. Assim SOU CONTRA TODo E QUALQUER TIPO DE PROSTITUIÇÃO.Sou contra
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De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 16:57
Como acho que os posts nunca encerram, mesmo quando se passam dias, semanas ou meses depois do último comentário, e devem isso sim, permanecer em estado latente e por nós avivados, quando achamos que algo mais há a dizer em relação ao assunto em causa, aqui vai uma actualização: Os principais jornais diários do dia 23/10/2005, deram conta de uma alteração legal que se pretende efectuar em relação à prostituição. Havendo neste momento uma legislação em Portugal, tendencialmente abolicionista, que teima na recusa da aceitação desta realidade social, o esforço para travar a prostituição, para além de ineficaz não resolve o problema em si. Neste momento avalia-se se o caminho a tomar é o modelo sueco, que criminaliza quem compra favores sexuais, ou os modelos holandês e alemão, quanto a mim muito menos hipócritas e mais realistas, já que visam encontrar soluções de legalização socialmente controlada.flyman
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(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 17:05
Faltou-me dizer que penso convictamente que enquanto a raça humana não passar para outro estágio evolutivo (se é que isso irá acontecer...), o fenómeno da prostituição nunca desaparecerá. Assim, o que valerá de verdade? Enterrar a cabeça na areia e pretender que esta é uma realidade inexistente, ou criminalizar as prostitutas os os compradores de favores sexuais, ou criar uma forma de legalização em que será mais fácil controlar esta faceta social, de forma a que questões como tráfico humano, pedofilia, condições sanitárias e outras, sejam encaradas de uma forma mais sadável e transparente? Parece-me ser este último o caminho a ser tomado.flyman
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