Quinta-feira, 11 de Agosto de 2005

Necessidade de humilhação

Pessoalllllllllllllllll as férias estão a correr bem, tirando o facto da minha mãe ter logo partido o pulso no dia que cheguei...engim... é o que digo, alguem me rogou uma praga!!! BOAS FÉRIAS PARA TODOS!

Fiquem com mais um conto da Alexandra... Um conto que poderá levar a várias interpretações!


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-Não te esperava aqui. Hoje. Hoje não, percebes? Tenho muito que fazer.
- Podes ao menos ouvir-me? É que preciso desabafar com alguém... Não posso falar disto com outra pessoa.
- Entra e senta-te, então... olha que não tenho muito tempo...

Levo-o para a sala. Convido-o a sentar-se no sofá. Hoje estou com pouca paciência mas, verei o que posso fazer por ele.

- E então? Agora não falas? – Pergunto enquanto procuro o maço de cigarros dentro da algibeira do pijama.
- É que... sabes... as palavras custam-me a sair... parece que estão presas na garganta ou, mesmo até, por baixo da língua...

As mãos dele não sossegam. Não sei se é por nervosismo, se é timidez, se o que é. Mas isto começa a irritar-me. A sala é invadida pelo fumo. Pego no maço de cigarros e ofereço-lhe um.

- Era bom se começasses a falar, sabes... é que tenho imenso que fazer, percebes? Vá, fuma um cigarro e tenta descontrair...
- Não percebo... não percebo como fui capaz de deixar levar-me por este sentimento de culpa... mas não consegui evitar...
- É... por vezes é mesmo assim... não sei se lhe possamos chamar egoísmo quando está em causa a nossa felicidade ou a do outro...
- E agora... não sei o que fazer... tenho a mente em branco... só penso nela... só nela... não adianta afastar-me, nem tentar unir o meu corpo ao de outra pessoa se a minha mente está constantemente presa á imagem dela...
- O amor tem destas coisas, não é verdade? – Acabo o cigarro e apago-o de forma decidida enquanto o olho nos olhos. Só agora reparo...
- Estás um traste! Aposto que não tens feito outra coisa senão noitadas atrás de noitadas...
- Todos os dias... não consigo estar só. A solidão angustia-me, derruba-me, destrói-me ainda mais... não consigo ficar sóbrio, não consigo ir para casa e ficar ali a vegetar, sem ideias decentes na cabeça. Vou ter com alguns amigos. Vamos a vários sítios diferentes numa só noite. Bebemos. Eu bebo muito. Até cair para o lado. Depois acordo, por vezes, com mulheres que desconheço a dormirem ao meu lado, na minha cama, dentro da minha casa vazia... é deprimente.

- Imagino... mas, ao menos, dá para te distraíres, não?
- O pior... é que já não suporto vê-la com outro! Fico possuído por ódio e raiva!!! E depois, imagino coisas diabólicas que me atormentam os pensamentos... Por vezes penso que a odeio, e tenho vontade de a estrangular, de a retalhar... se isso a fizesse ser minha, só minha...
- Mas que coisa horrível... ouve, acho que andas mesmo mal da cabeça... Olha, isso deixou-me de tal maneira seca que vou buscar alguma coisa para beber... Queres?
- Hum... Sim, pode ser...
- Bem, vou fazer um gin tónico para mim mas, para ti trago-te um copo de leite, pode ser? É melhor que não bebas mais álcool senão ainda me estrangulas para aqui... não me confundas...

Consigo fazer-te sorrir da tua própria maldição. Consegues rir-te um bocadinho do terror que te atormenta.
Volto a sentar-me. Acendo mais um cigarro. E fico assim, a beber o meu gin e a observar a tua figura de menino rebelde arrependido, agarrado ao copo de leite como uma criança agarrada ao biberon... dá-me vontade de rir mas, sinto uma certa compaixão por ti. Devo dizer-te que, esse teu ar de cãozinho abandonado fica-te impecavelmente bem e, consegue tocar no mais íntimo dos meus sentimentos de bondade.

- E agora? Que queres que eu te faça?
- Apenas quero que me oiças... nada mais... é pedir-te muito?
- Nada posso fazer por ti... podia, enfim dizer... sim, mata-te! Pois deve ser preferível a matar alguém...
- Eu não a odeio... não, não lhe quero mal algum. Chego á conclusão que o odeio a ele. Odeio-o tanto!!!
- Ora... tu aceitaste as regras do jogo e agora lamentas-te??? Tu é que estás a mais... devias meter-te a milhas o quanto antes!
- Tu... tu, falas assim porque... porque não tens coração...
- Eu falo assim porque... olha, porque se calhar amei de mais não? E no teu caso, talvez fosse preferível o suicídio do que o assassínio... seria péssimo para a tua querida mãe saber que tinha em casa um presumível assassino...

Ele suspira. Parece uma lesma... uma lesma que arrasta pelos cantos do jardim da vida toda a sua melancolia.

- Ouve, eu não vou estar para aqui a servir de advogada do Diabo. Estas situações vindas da tua parte já eram de esperar. Eu avisei-te na altura que era arriscado meteres-te com ela... pensaste que podias dar umas cambalhotas no parque de diversões da tua cama mas, por vezes, as coisas nem sempre são assim.

Ele continuava em silêncio.

- Devo dizer-te o quanto me irrita eu estar para aqui a discursar e tu aí... sempre nesse silêncio! Realmente, não sei bem porque insistes sempre em vir cá. Já sabes de ante mão que eu e tu não servimos nem para uma conversa de jeito. A tua figura, nestes momentos, enerva-me de tal maneira... e depois, não falas, não dizes nada e, quando abres a boca, enfim... é o que se espera... Mais valia atirares-te para o chão e gritares, esperneares... mais valia que chorasses!
- Desculpa... não queria que isto tivesse chegado a este ponto...
- Sabes bem que também não ando em boa maré... Ouve, vai para casa, tenta descansar. Não voltes a encontrar-te com ela se não te sentes suficientemente forte para enfrentar a situação... Ah! E acaba lá de beber o leitinho todo antes de ires! – Sorrio e dou-lhe uma pancadinha leve na cabeça.
- Não há nada a fazer?
- Não... considera-te um caso perdido... vai para casa e arquiva-te! É o melhor que tens a fazer...

Levantamo-nos. Levo-o até á porta. Não nos beijamos sequer. Já nos beijámos excessivamente no passado. Nada mais nos prende a não ser a necessidade de palavras bruscas de vingança e perdão.



alexandraantunes



Impressão Digital Cereza às 17:16
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27 comentários:
De Selvagem Anónimo a 11 de Agosto de 2005 às 19:50
Um texto novo, que bom!!! :D Cereza, és um espectáculo, nem nas férias te esqueces de nós... um grande beijinho para ti, espero que te estejas a divertir muito. Alexandra, a interpretação deste teu texto pode ser feita de vários prismas. Por um lado temos alguém que ama uma pessoa que, por sua vez, está com uma terceira. Esta situação tem o seu quê de complexidade. O amor, quando não é correspondido, pode ser fatal, tanto para o corpo como para a alma. Por outro lado temos uma situação curiosa. O que é que levará este homem a casa de uma "amiga" (suponho que seja amiga), para desabafar sobre esta situação quando sabe, à partida, aquilo que ela lhe vai dizer? Necessidade de humilhação?! Vingança ou perdão?! Não creio. Acredito mais que o tenha feito com esta pessoa devido ao clima de cumplicidade entre os dois, provavelmente resultante dos tempos em que se "beijaram excessivamente". O elemento feminino pode não concordar com a forma de reagir do elemento masculino, mas parece conhecê-lo muito bem, por dentro e por fora. Quando nos sentimos perdidos tendemos a agarrar-nos a quem melhor nos conhece, mesmo que saibamos que vamos "levar nas orelhas". Por vezes é exactamente isso que procuramos... alguém a quem reconhecemos autoridade que nos confirme que não estamos no caminho certo. Creio que todos nós temos essa necessidade de ter um "grilo falante". Beijos *** Safira
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(mailto:saphireonearth@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 11 de Agosto de 2005 às 19:51
Hey babe!!!Hey honey!!!Take a walk on the wild side. And the colored girls go....and say...... dooo do doooo do dooo do do dooo....wwwwooooooo ;))Eu já volto!!Beijo para tiiiiiiiiiiiiiii Cerezamarta
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(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 12 de Agosto de 2005 às 10:52
Conheço o género´´menino rebelde arrependido``.Tão maus que são/foram/serão,
e como se conseguem humilhar...à espera do que há muito mereciam--O pontapé final.
Dá-nos gozo,prolongar esse ´´prato`` que se tem a certeza que se vai servir frio.
Alexandra,não ligues ao que escrevo..é desabafo!Gostei muito do texto,e consegues,
resumir tudo nesta frase´´... considera-te um caso perdido... vai para casa e arquiva-te!..``Beijos
marta
</a>
(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 12 de Agosto de 2005 às 11:06
Vê-se "humilhação" onde possivelmente se devia de ver "amizade" ......o mostrar de sentimentos sem reservas de kualker espécie......enfim interpretações..."sempre os homens os maus da fita"....
Fikem bem
Inté luisv
</a>
(mailto:luismsvieira@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 12 de Agosto de 2005 às 11:33
Talvez se devesse ver amizade,sim!!Não sei,cada caso é um caso..Mas quanto a mim,fico´´doida``..quando
alguém diz que sente ódio de quem ama(ou diz que ama),só por não o ter
do seu lado.Este sentido de posse,para mim,não é amor...é egoísmo.
AMAR É DAR.Amar é sentirmo-nos felizes por ver o outro feliz,
estejas onde estiver,ou com quem estiver.Aceito a dor da perca,a mágoa
do que poderia ter sido...Não aceito,a raiva nem o ódio.marta
</a>
(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 12 de Agosto de 2005 às 12:36
Escreves lindamente, Alexandra, parabéns. Gosto da facilidade e plausibilidade com que o dialogo decorre. Quanto ao âmago é que, enfim, percepciono como uma amostra de literatura no feminino. Perdoem-me lá mas é assim mesmo que eu percepciono. O Tochas diria, imagino, que alguém estaria a chocar uma trombose, neste caso, intrincadíssimo, até poderíamos dizer que duas pessoas chocariam tromboses. Um por transferência, um chocar de trombose virtual, a outra chocando intensamente a trombose de ser uma "wannabe bad" ... Enfim, não percebo nada destas coisas, eu! Um beijo do AnjoMaslow
</a>
(mailto:manuel_azevedo@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 12 de Agosto de 2005 às 14:18
Bem, comentar este artigo é, como dizer, complicado!?!?!? Ele apesar, das suas "raizes" de Bondage, ele fala em algo que acontece muitas vezes numa relação em que termina e em que uma das pessoa AMA e não consegue aceitar a separação... É neste momento que se aplica a frase: "Só quando perdemos quem gostamos, damos realmente valor a essa pessoa!!!"... Neste texto, gostei, como a Alexandra, consegue fazer com que ela seja "bruta" com ele e tenho de concordar com uma das partes do texto: "- Eu falo assim porque... olha, porque se calhar amei de mais não? E no teu caso, talvez fosse preferível o suicídio do que o assassínio... seria péssimo para a tua querida mãe saber que tinha em casa um presumível assassino..." Apesar de não concordar com nenhuma delas... Qualquer uma das situações é fugir à resolução dos problemas, mas o que ela quis fazer no texto a meu ver, foi fazer com que ele visse que o problema era ele e não por quem foi trocado... Alexandra, mais uma vez, me fazes perder com as tuas palavras. Obrigado. Cereza, Boas férias e as melhoras da tua mãe...
Criador_Sonhos
(http://criadorsonhos.blogs+pt.com)
(mailto:miguel24lx@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 12 de Agosto de 2005 às 14:20
Bem, Weeeeeeeeeeeeeeeeeeee... Estou quase de férias...Criador_Sonhos
(http://criadorsonhos.blogspot.com)
(mailto:miguel24lx@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 12 de Agosto de 2005 às 14:20
Bem, Weeeeeeeeeeeeeeeeeeee... Estou quase de férias...Criador_Sonhos
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De Selvagem Anónimo a 12 de Agosto de 2005 às 14:33
Criador_Sonhos, se disses isso mais alguma vez eu passo-me!!!!!!!!!!! Grrrrr!!!Safira
</a>
(mailto:saphireonearth@homail.com)


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