Quarta-feira, 3 de Agosto de 2005

Recordações de um sotão

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Remexer os caixotes poeirentos guardados no nosso sótão, carregados de recordações antigas é sempre um perigo. Um acto desesperado de quem procura encontrar alguma felicidade escondida atrás do simbolismo de um objecto ou a busca de alguma inspiração encontrada disfarçando os objectos de lembranças, falsas recordações infelizes encobertas de uma tristeza mórbida que lhes facilita a escrita. Já quase não existem puros artistas.

Eu não sou artista, nem tão pouco tento ser, no entanto encontrei algo no meu sótão. Algo poeirento e antigo, que me despertou sentimentos esquecidos, há muito tempo enterrados na minha mente por futuros acontecimentos. Alguns deles mais graves, outros, simples futilidades. O dia-a-dia não permite viver na lembrança e, como tal, esqueci.

Eu não sou artista, mas uma verdadeira melancolia apossou-se de mim. Mal me movi enquanto tentava respirar. Não imaginava ser possível sentir-me assim novamente. Sentada num cantinho limpo do meu sótão folheei-o avidamente até encontrar as cartas. Gravadas no papel amarelado estavam cartas, de amor, de despedida. Simples cartas que pessoas fictícias escreveram apaixonadamente até o final das páginas. Tudo em redor das cartas. Cartas que idolatrei durante os tempos em que as lia repetidamente, até que esqueci.

Ao longo de vários tempos desejei ver-me na mesma situação. Imaginei reacções, sentimentos, situações constrangedoras mas ao mesmo tempo sabia que a impossibilidade era uma constante. E esqueci. Escondi as cartas dentro de caixotes, debaixo de livros, bem no fundo do meu sótão e não voltei a tocar-lhes ou a lembrar-me delas.

Não sou omnisciente, não sou sequer algo perto. Como ser inferior e atada à minha humildade admito que errei, errei gravemente. Não devia ter esquecido, pois nem quando, finalmente, me detive em estados semelhantes, que por tanto tempo desejei, recordei as cartas. Os caixotes continuaram fechados até o dia em que, levada inconscientemente, recordei.

O desejo eclodiu. A paixão fez-se sentir até as pontas dos dedos e pela primeira vez, não chorei. A resposta era tão óbvia que nem podia acreditar que a tinha encontrado. Nem mesmo tendo que pisar o meu orgulho, coisa que raramente faço, me arredo. A importância é algo a ser devolvido.

A memória é a nossa perdição, quando nos deixamos levar por tristezas. Se nos deixarmos mergulhar em lembranças menos felizes não há muito que outros possam fazer para aliviar a dor, nem que tentem com todas as suas forças. Já vi provas de amizade tão enormes e nem assim me movi. Por vezes é preciso descer bem fundo, perder tudo e todos para nos voltarmos a encontrar. Bem, suponho que ainda vou a tempo de recuperar alguns.



Narag



Impressão Digital Cereza às 01:34
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