Sábado, 23 de Julho de 2005

Saudade

O mestre da guitarra portuguesa morreu há um ano!


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Carlos Paredes


1925 - 2004




SAUDADE:


Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessôa
Que fôsse misteriosamente minha.
Álvaro de Campos (Ode Marítima)




Eu só entendo o fado
pla gente amargurada à noite a soluçar baixinho
que chega ao coração num tom magoado
tão frio como as neves do caminho
que chora uma saudade ou canta ansiedade
de quem tem por amor chorado
dirão que isto é fatal, é natural
mas é lisboeta
e isto é que é o fado
Amália Rodrigues
(Fado Lisboeta)



Olho em volta de mim. Todos possuem -
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.
Mário de Sá-Carneiro (Como eu não possuo)



Amor da Pátria
Vereis amor da pátria, não movido
De prêmio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prêmio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor supremo,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.
Luís de Camões (Os Lusíadas, Canto I)


Impressão Digital Cereza às 20:37
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30 comentários:
De Selvagem Anónimo a 23 de Julho de 2005 às 20:53
Sou um miudo ainda e pouco ou mesmo nada sei desse Senhor, a não ser o que ouço e leio plas bocas dos outros... Mas também sei que ele nunca será esquecido... O seu trabalho será para sempre por todos lembrado, como aqui o fazes... São estes pequenos gestos, como o que aqui mostras no blog, e outros, como os de Avós e Avôs que ouvem as suas musicas e as mostram aos netos/as, que farão com que ele não "morra"... Apenas partiu...

Acho que isto é tudo o que eu posso dizer... mais gostaria de dizer, se também mais soubvesse... Cereza, boa escolha da musica, a unica que dele conheço... Criador_Sonhos
(http://criadorsonhos.blogspot.com)
(mailto:miguel24lx@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 23 de Julho de 2005 às 21:43
Ai que vocês não sabem nem sonham o que este tipo de música, tradutora da alma portuguesa, representa para mim, e para tantos outros portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo! Sobre Carlos Paredes, palavras para quê? Estes seus "Verdes Anos" tocam-me profundamente e, depois de ouvir isto, eu só posso mesmo deixar que me escorram estas lágrimas de saudade por tudo o que de "meu" tenho aí nesse nosso jardim (muito maltratado, diga-se de passagem)...Starry-Night
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(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Julho de 2005 às 21:50
...à beira mar plantado. A emoção foi tanta que parti o comentario ao meio e agora não consigo prosseguir. Deixo, no comentário seguinte, algo que hoje escrevi acerca de saudade, como se estivesse a adivinhar que vinha aí muita saudade para mim. Starry-Night
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(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Julho de 2005 às 21:51
“Revolvo-me na saudade dos tempos em que tinha o mundo nas mãos, nas saudades dos tempos em que tinha tempo, nas saudades do tempo em que fácil era fazer escolhas, era dizer não, era partir para outra, sempre e muito confiante de que as que se perdiam eram todas aquelas que caíam no chão. Sofro de saudade, tanta e muita saudade! Principalmente de mim, de tudo o que fui e já não sou, porque deixei de ser, dando espaço aquela que hoje sou, a qual creio não ser, ainda, aquela que acabarei sendo no momento em que encontrar o verdadeiro significado da minha passagem por este mundo insano em que me movo através de altos e baixos. Isto mais parece uma prova, uma forma de testar a minha capacidade de resistir!”Starry-Night
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(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Julho de 2005 às 22:20
Não somos nada!!...Somos apenas a memória dos que cá ficam.....O Carlos conseguiu deixar muito mais do que isso...marta
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(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 24 de Julho de 2005 às 00:00
Se até hoje houve alguém que ilustrasse a "alma portuguesa", o "sentir português", em toda a sua mágoa, em toda a sua nostalgia, em toda a sua saudade e esperança, para além da Amália, foi sem dúvida Carlos Paredes. Para mim um dos maiores virtuosos da guitarra. Jorros de notas, sons, música que através daqueles dedos lhe saíam de todo o corpo e de toda a alma. Pessoalmente prefiro mesmo a música de Carlos Paredes à Amália (ok, puristas, crucifiquem-me...). O som de Carlos Paredes sempre me emocionou e levou a estágios sensoriais, que a ouvir a Amália nunca cheguei. O seu legado ficará por todas as gerações vindouras. Saibamos apreciá-lo. Obrigado Carlos... :)flyman
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(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 24 de Julho de 2005 às 00:02
É a vida... os mestres vão deixando a sua sabedoria aos quem quiserem apreciar e aprender... Suicidal_kota
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(mailto:cromokamikaze@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 24 de Julho de 2005 às 00:03
Ah! Atenção que eu não disse que não gostava de Amália, OK? Gosto!... Prefiro é Carlos Paredes... obrigadinho...flyman
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(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 24 de Julho de 2005 às 00:53
Só de ouvir Carlos Paredes, sinto um enorme nó no peito... é algo que não tem explicação, uma sensação de melancolia, e ao mesmo tempo de enorme alegria. Concordo com o Fly, ninguém representa melhor a alma do povo portugues como este homem... Nem a Amália, de facto!
Já agora conto-vos uma história. Antes de vir aqui para Sintra, vivia em Lisboa, numa zona... num bairro onde a população é maioritáriamente idosa. Adorava aquilo... nesse bairro vivia muita gente ligada á cultura... Muitas vezes vi o Ruy de Carvalho e o filho (tb actor) o Armando Jorge(bailarino principal da companhia nacional de bailado, tornando-se depois encenador)lena de Agua, o pai Jose Aguas, politicos, enfim... Mas havia um senhor, que se vestia de maneira discreta e muito humilde, andava sempre acompanhado da mulher e da filha... pois é... era o Sr. Carlos Paredes. Lembro-me de ficar sempre muito entusiasmada quando o via... dizia sempre a quem estava comigo: olha ali o Carlos Paredes.. é aquele de cinza, tás a ver?????!!! Não conseguia resistir a seguir-lhe com o olhar. Ele era diferente dos outros todos, passava despercebido, sempre com um olhar triste e distante, cabeça em baixo, roupa escura e simples....Sentia sempre alguma pena, um sufoco enorme...(não me perguntem pq) a mesma sensação que a musica dele me transmite. lembro-me nos ultimos tempos, já bastante debilitado, saía á rua sempre de braço dado com a mulher e filha. Sentia-se um enorme carinho entre eles. Carlos Paredes, nunca teve o objectivo de ser estrela... era um homem simples, que sentia a alma lusitana como ninguém. Tive de fazer esta homenagem, não só pela sua mestria na guitarra portuguesa, mas sim por aquele senhor humilde que quase todos os dias ía tomar o seu "garoto" no mesmo café que eu. cereza
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De Selvagem Anónimo a 24 de Julho de 2005 às 05:10
Há pouco nao fui capaz de comentar apesar de ter sorrido,mas nao fui. Depois de ler o comentário da Cereza, recuei no tempo e vi-me percorrendo as ruas do mesmo bairro, a falar com as mesmas pessoas e a beber café na mesma pastelaria. Se a nostalgia que senti com a recordação do Carlos Paredes já foi grande imaginem, se forem capazes, o que é recordar o que foi viver naquele bairro? Lá cresci e lá me tornei Mulher e foi lá que conheci Carlos Paredes e manterei sempre viva a sua prsença enquanto isso me for permitido.
Bom domimgo a Todos beijinhosconstancinha
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