Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2006

Que me interessa?

Da nossa Narag






morte4.jpg



Andei já eu de mão dada com a morte
Uns dizem que é fado,
Outros dizem que foi sorte.
Mas que me interesso eu com a morte?
Se já me colocam adágios
No alpendre da frente da casa,
Como que bons presságios,
Para o meu eterno descanso.

Mas que me interessa isso a mim?
Se mais certo não há
Que termos todos um fim,
Porquê querer tanto ver a manhã?
E logo algo que, enfim,
Vem todo o dia!
E que tanta vez passamos sem ver,
Dormindo até o meio-dia
Por desconhecer
Que no seguinte amanhã
Podiamos morrer.

Não me interessa isso mesmo nada!
Eu que acordava toda a madrugada,
E ao pôr do sol estava deitada,
Não quero saber se verei amanhã!
Não dei o corpo ao trabalho
Não estudei, nem sou educada,
Tudo o que sei é quase nada,
Mas no que aprendi nunca falho!
Não tirei até agora grande lição
Excepto que a razão dá trabalho
E o coração é um cobarde reles
Que nem anjo e demónio,
E preciso de nenhum deles.

Ainda assim eu choro,
E não! não temo a morte.
Não temo a morte porque não vivi
E tudo o que corri,
Tudo o que senti,
Não foi mais que um falanço da minha parte
Talvez porque fui ingénua,
Ou faltou-me a arte.
Para viver é preciso arte.

E com braços frouxos
Embraço de uma triste mentira
De que ainda um dia tiraria
Algo de sabedor
Desta vida minha.

Doença.
Doença é o que me assola diariamente,
Como um tumor dilacerante,
Permanente.
Vivo sentada e dormente.
Como uma doente,
Para tudo preciso de um ajudante,
E nada me espera,
Nem pensamento, nem realidade,
Tudo o que me resta é a minha enfermidade
E uma cadeirinha
Onde me encosto, dolente.



by Bárbara Sousa aka Narag
30 de Janeiro de 2006




Impressão Digital Cereza às 09:05
link do post | Rugir | Adicionar aos Favoritos
|
18 comentários:
De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 09:38
Este tipo de poema, para mim nao se comenta, absorve-se apenas.Está lindissimo, meus parabens Naragblocas
</a>
(mailto:blocas@blo.com)


De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 12:56
Ai narag como eu te entendo! Há dias, que tudo parece um buraco negro! Felizmente por vezes alguns raios de sol conseguem entrar no escuro. Por vezes pergunto-me pq estou assim? Na maioria das vezes é NÃO SEI! Mas que há algo que nos consome, há.
Narag, mais uma vez, a mão de uma poetisa. cereza
</a>
(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 13:14
Narag assim que comecei a ler o teu poema veio-me à ideia algumas linhas da "Confissão" de Tolstoi que não resisto a deixar aqui :))

"A doença e a morte, mais cedo ou mais tarde, acabariam por vir, afectando toda a gente e eu próprio, e nada restaria excepto podridão e vermes. Os meus feitos, sejam eles quais forem, serão esquecidos mais cedo ou mais tarde, e eu próprio não existirei mais. Porquê, então, fazer seja o que for? Como pode alguém não ver isto e viver? É isso que é espantoso! Só é possível viver enquanto a vida nos intoxica; quando ficamos sóbrios não podemos deixar de ver que tudo isto é uma ilusão, uma estúpida ilusão! E isto não é divertido nem espirituoso; é apenas cruel e estúpido....
...a questão é esta: O que será do que faço hoje e amanhã? O que será da minha vida inteira?.....
Expresso de forma diferente, a questão pode ser: Por que hei-de viver? Por que hei-de desejar ou fazer seja o que for? Ou, de outra forma ainda: Há algum sentido na minha vida que não seja destruído pela minha morte, que se aproxima inevitavelmente?
Haverá algo de real que resulte da minha vida? Tormento eterno ou felicidade eterna. Que sentido há que não seja destruído pela morte?
O conhecimento racional conduziu-me à conclusão de que a vida não tinha sentido...
...ao olhar para as outras pessoas vi que viviam e convenci-me de que conheciam o sentido da vida. Voltei-me então e olhei para mim mesmo; desde que conhecesse o sentido da vida, viveria." (retirado de Confession – Leão Tolstoi 1882)

Tex
</a>
(mailto:texazinha@iol.pt)


De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 14:03
Narag A poesia não se comenta, dizem!!! Mas este pedaço, com versos feitos, sentidos, brotados do mais íntimo, é um pedaço de vida também, envolvida no véu das emoções mais vividas... quanta intensidade colocaste em cada palavra. Pesadas e pensadas na balança do "E que tanta vez passamos sem ver, Dormindo até o meio-dia. Por desconhecer
Que no seguinte amanhã Podiamos morrer...", Beijinhos Mascote do UJ

lua_de_avalon
</a>
(mailto:ermelinda_1955@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 14:49
sinceramente não me está a apetecer ler porque sei que me vai fazer sentir pior... só a musica já me faz lembrar de acontecimentos menos agradaveis... mas prometo que um dia destes leio =)PauloTiago aka [M]orcego
(http://caderno-de-apontamentos.blogspot.com/)
(mailto:paulo_tiago_s@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 15:15
Viver cansa!!E eu estou cansada...Apesar de não me faltar nada e de nada ter,obrigo-me a sorrir a cada momento...quando ela,a tal de morte chegar, cá me apanhará...nem sequer vou tentar fugir...Não tenho medo...Que bom que é não ter medo!!Ao menos isso!!!....Um beijooooo Naragmarta
</a>
(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 16:14
Como eu costumo dizer, o mundo está cheio de poetas. de vez em quando aparecem pessoas com um talento que nos causa admiração. Apenas achei este poema muito triste. Desde já os meus parabéns!RS
(http://hiuu/lkyg)
(mailto:Nelia@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 19:16
Enquanto o inevitável não vier, há mesmo é que aproveitar o melhor que se puder e souber... A Primavera está aí à porta. As árvores estão floridas, os campos verdejantes e cheios de flores e a passarada brinca. O Sol já se sente. Quanto ao poema, palavras para quê?... :)flyman
</a>
(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 20:01
É mórbido falar na morte (que me interessa?), por isso difícil. Mais ainda é fazer poemas com ela, não obstante ser o que de mais certo temos na vida por significar um fim. Mas também significa um princípio porque renasce a vida “e é porque tudo tem um fim que tudo é tão belo” . Não pode haver um fim se não houver princípio. A morte “não nos diz respeito nem a mortos nem a vivos: vivos, porque ainda o estamos, mortos, porque já não existimos” . Pelo feito de brincares e conseguires transformar a tristeza da morte em amor, os meus parabéns.abel
</a>
(mailto:barretomarques@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 21:15
Narag....como sempre escreves lindamente e intensamente...mas falar de morte para mim é perder tempo com cada segundo da minha vida...e aviso que hoje aconteceu uma coisa muita boa!!!!!!!!!!!! e apetece-me a agradecer à vida tudo de bom que vou tendo!!! e nem apanhei uma bebedeira que tinha prometido:PPPPMajoca/SaloiaLoira
</a>
(mailto:manejorge@netcabp.pt)


Ah... Comenta-me