Quarta-feira, 22 de Junho de 2005

Quem quer bons despedimentos arranja-os!

Mandado pelo Maslow. Está demais!

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Desculpem lá ter-me baldado a escrever a crónica na ultima semana, mas acontece que estive muito ocupado, sem tempo sequer para me coçar. É que, finalmente, fui despedido! Não, esperem lá, ainda não foi desta que se livraram de mim. Fui despedido do “tacho” na empresa onde tinha a secretária, o telefone e os cartões de visita, mas continuo naturalmente com a meia dúzia de biscates que fui acumulando ao longo dos anos, daqueles que, como este, não dão trabalho nenhum e sempre rendem umas massas valentes ao fim do mês.



Como se sabe, ser despedido é hoje uma tarefa muito mais difícil e complicado do que arranjar emprego. Mas, confesso, muito mais interessante e produtiva. Para arranjar um despedimento em condições não basta responder a uns anúncios num jornal, ir a umas entrevistas idiotas e fazer uns testes concebidos por anormais em que nos perguntam se depois de um triângulo deve vir um quadrado ou uma bola.



Um despedimento exige uma preparação de meses ou anos, muita encenação e uma dedicação em “full-time”.



Bem vistas as coisas, o que um tipo deve procurar no mercado não são empresas que assegurem bons empregos, mas antes que garantam bons despedimentos.



Para a coisa ser bem feita, o despedimento deve começar a ser preparado logo no primeiro dia em que assentamos a “bunda” na cadeira do novo gabinete. Tudo o que façamos a partir desse minuto tem que ser orientado tendo em vista atingir a coroa de glória do dia em que somos corridos pela porta.



É assim que, independentemente da função que nos é atribuída, devemos começar por demonstrar ao chefe ou ao patrão que o nosso antecessor era uma besta quadrada, que roubava esferográficas e borrachas, que fazia telefonemas para as linhas eróticas, enfim um ladrão e um incompetente. Asseguramos assim que o homem se sinta satisfeito e agradecido aos deuses por ter corrido com o inútil e finalmente ter contratado um gajo às direitas e com eles no sítio.



Segue-se depois a segunda fase, claramente a mais difícil, que consiste em ir coleccionando pacientemente todos os papelinhos comprometedores. Vale tudo: golpadas ao fisco, cartas das amantes, contas do “Hipopótamo” ou do “Elefante Branco” metidas como despesas com clientes, etc.



Devidamente habilitados com este manancial e ganha a confiança dos tipos que passam os cheques, há que passar à fase do não fazer nenhum, deixando acumular os processos, inventando baixas e faltas pela morte de tios, padrinhos e avós, mas sempre, é claro, mantendo a postura de completo respeito e subserviência e cumprindo religiosamente os horários nos raríssimos dias em que pomos lá os pés.



É certo que passados uns meses o chefe irrita-se com aquela fantochada e dá-nos uns berros valentes à mistura com meia dúzia de insultos à nossa querida mãezinha. Há que esfregar as mãos que o momento de glória está próximo. A atitude a tomar é sair de cabeça baixa e no dia seguinte recolher a uma clínica psiquiátrica com uma depressão profunda, não sem antes ter feito constar de uma tentativa falhada de suicídio “derivado” aos maus tratos a que fomos sujeitos com o consequente trauma emocional. Passadas umas semanas, somos chamados à administração, em que uns gajos meio enrascados que nunca vimos mais gordos, nos despejam aquela conversa gasta de que é necessário reestruturar o sector, que o nosso perfil talvez não seja o mais adequado à função, que não é nada pessoal contra nós, que se calhar as nossas capacidades não estejam a ser aproveitadas naquele lugar, e por aí adiante. E a gente a abanar a cabeça, a dizer que concorda e que agradece, que está completamente disponível para aquilo que for preciso, que ainda bem que nos estão a mostrar o caminho da verdade, que até já nos tinha passado pela cabeça tomar a iniciativa mas a esposa não deixou.



Quando os gajos se começam a encostar para trás na cadeira com ar de quem já nos têm no papo, é que puxamos do dossier com o repertório de falcatruas, perguntando inocentemente se o podemos deixar ali ou se também querem as fotocópias que temos em casa.



A partir dali a coisa já não tem história. Piramo-nos com uma boa indemnização no bolso e uma carta de recomendação a condizer e vamos direitinhos ao fundo de desemprego sacar uns mesitos de salário sem fazer nenhum, e só quando estamos refeitos é que partimos para outra.



É claro que esta técnica, que generosamente aqui compartilho, pode e deve ser adaptada às circunstâncias. O que é mesmo importante é termos a consciência de que quando alguém mete na cabeça que nos vai pôr a andar passa a ter um problema. E o problema é dele e não é nosso.



A crescer a isto, ajuda muito a ideia de que o desempregado é uma vítima. São as empresas que não prestam, os chefes umas bestas, o “sistema” que não funciona. O desempregado é, portanto, um infeliz, um desvalido, que até merecia a Cruz de Guerra. Dão-nos lugar na bicha do eléctrico, isenção de impostos, apoio de umas simpáticas senhoras da segurança social. Enfim, um maná!



Está tudo na sua mão. Quem quiser bons despedimentos, arranja-os!



(Manuel Ribeiro, economista – publicado em “Notícias Magazine”)








Impressão Digital Cereza às 23:47
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14 comentários:
De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 00:45
Este Manuel Ribeiro, economista, paineleiro-cronista da Notícias Magazine, é para mim, um verdadeiro mistério. Quem ler assiduamente as opiniões por ele expressas todas as semanas, depara-se com verdadeiros tratados do "politicamente incorrecto". É um grande agitador de consciências, pela forma como aborda os mais variados temas. É o apelo ao mais profundo machismo, à mais desavergonhada preguiça, ao mais evidente sectarismo, enfim tudo "ao contrário" daquilo que seria de esperar de um conselho bem dado... Um dos que melhor recordo, era um em que falava das hospedeiras (assistentes de bordo)... e de que maneira!... (a agitação que provocou na classe!...) O mais engraçado, é que acho que este Manuel Ribeiro, economista, deve ser uma mulher inteligentíssima, capaz de se colocar na pele de um macho-esperto-saloio e emitir opiniões, exactamente ao contrário daquilo que pensa... Cá para mim, o meu caro WG também passou pelo mesmo curso, mas numa versão muito mais suave... :ppp LLLLOOOOLLLLflyman
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(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 00:58
Quanto ao texto, propriamente dito, destaco a seguinte ideia do autor: "Bem vistas as coisas, o que um tipo deve procurar no mercado não são empresas que assegurem bons empregos, mas antes que garantam bons despedimentos". Ora aqui está o cerne da questão para quem procura emprego... Eu já não tenho remédio mas a minha filha há-de procurar emprego, quando chegar a altura e vou procurar ter presente esta máxima para a aconselhar... LLLOOOLLL

flyman
</a>
(mailto:flyman_pegasus@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 01:07
Este Manuel Ribeiro, ao contrário do q o flymoço diz, n é mulher não, é homem e até tem livros publicados. Mestre do escárnio e maldizer, adora dizer mal das mulheres, mas ele próprio diz q n pode viver sem elas....gosto muito de ler as crónicas dele.....e até q enfim q aparece alguma coisa mais importante, para ele, do q dizer mal do sexo fraco (leia-se mulheres, homens falando, claro...)..ehehheh.....mas pior q ele só mesmo as "Crónicas da Cidália em : O sexo e a Cidália""....Todas as semanas num jornal perto de si (revista GR: Grande Reportagem.)....e como ela diz ( o q eu apoio 1000% : "Oh God, make me good....but not yey!!!!") Beijos para todos os paineleiros deste blog....Ana_Crónica
</a>
(mailto:ana_cronica@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 09:57
ó maslow dá-me emprego, bem já temos o menu do bom despedimento, agora basta apenas começar, assim sendo boas marteladas para voces todos.Cetus
(http://pintadodefresco.blogspot.com)
(mailto:teixeirarui@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 10:17
Bem, o que mais me da prazer, é qd a minha boss diz qq coisa para me irritar e espera uma resposta dakelas para depois em repreender ou chamar a atenção e eu apenas fico calado ou abano a cabeça a concordar com ela, o q faz com q ela se iorrite imenso... Nem imaginam o gozo q da ver ela irritada pq ñ reagimos como ela esperava... Ana_Cronica, ja estas mais assidua nos coments aki, so falta agora no canal... jokinhas a todos q eu vou contrariar a boss mais um poukinho... hastaaaaaaaaCriador_Sonhos
(http://criadorsonhos.blogspot.com)
(mailto:miguel24lx@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 11:11
Sou fã do Manuel Ribeiro, o qual aliás conheço pessoalmente :)

É realmente um "gande maluco"!lollllllllll Tex
</a>
(mailto:texazinha@iol.pt)


De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 11:40
maslow, cá para mim este manuel ribeiro é o BOAVISTEIRO.cereza
(http://bbb.blogs.sapo.pt/)
(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 12:24
como devem compreender eu nem me dou ao trabalho de comentar este texto porque, o que acho dele, ao dar-me ao trabalho de o transcrever e ao envia-lo para a Shery, só por si diz do que me divertiu. Claro que são sinais dos tempos ... a atenta Tex enviou-me hoje isto ... "Estamos perdidos ha muito tempo... O pais perdeu a inteligencia e a consciencia moral.
Os costumes estao dissolvidos, as consciencias em debandada. Os caracteres corrompidos. A pratica da vida tem por unica direccao a conveniencia. Nao ha principio que nao seja desmentido.
Nao ha instituicao que nao seja escarnecida. Ninguem se respeita. Nao ha nenhuma solidariedade entre os cidadaos. Ninguem cre na honestidade dos homens publicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe media abate-se progressivamente na imbecilidade e na inercia. O povo esta na miseria.
Os servicos publicos sao abandonados a uma rotina dormente. O Estado eh considerado na sua accao fiscal como um ladrao e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciencias. Diz-se por toda a parte, o pais esta perdido! Algum opositor do actual governo? Nao! " ... Adivinhem lá quem escreveu isto e quando :) ...Um beijo, o Anjo
Maslow
</a>
(mailto:manuel_azevedo@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 12:31
Ora aí está uma boa justificação para eu não contribuir para a queda do desemprego em Portugal.formasdolhar
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(mailto:formasdolhar@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 15:42
Maslow AHAHAHAHAHAHAH..... ADOREI! Muito bom! Quando quiser ser despedida vou-me lembrar disto! LOL


cereza Muito Obrigado pelo comment no blog, mas apesar de tudo o que me dizem ou não dizem, não acho estar à altura. Talvez pense melhor nisso, mas tem que ser uma coisa BOA, muito boa senão prefiro estar quieta :PBárbara (Narag)
(http://naragturg.blogspot.com)
(mailto:barbara10sofia@hotmail.com)


Ah... Comenta-me