Quinta-feira, 2 de Junho de 2005

Além da visão

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-Os livros estão espalhados pelo chão... montanhas de livros nesta sala... gostas de ver-me assim sentada e nua... assim... nesta pilha de livros... são páginas e páginas de uma vida... de vidas e vidas...


-Gosto sim. E quem não gostaria de assim te ver? A imagem do teu corpo envolto de livros, de páginas e palavras dançantes, palavras cantantes, recorda-me que uma imagem vale mais que mil palavras. A imagem que tenho de ti revela-me muito mais a teu respeito que me poderiam dizer todos os livros que vejo aqui espalhados.

-Eu sei que queres ler-me. Sei que queres ler todas as páginas da minha vida... eu sei... vejo o desejo crescer através dos teus olhos...


-Um olhar diz tudo. O meu olhar diz tudo sim. O meu olhar diz-te tudo e não te mente, não te engana...


-Não digas nada então... Eu pego nas tuas mãos. Não olhes mais para o meu corpo. Agora tenho vergonha. Quando me olhas eu vejo dez pares de olhos de vidas passadas... sinto-me angustiada... fecha-os para que não recorde quartos que transpiram a sexo. Fecha-os para que as imagens não me sigam e me assombrem nesta sala cheia de livros... Não, não fales!... não olhes... eu falo por ti. Adivinho-te cada pensamento que te assombra neste momento. Tens medo. Eu sinto a minha angústia que te provoca um pânico delicioso. Agarro as tuas mãos.


-Sei que me proibiste de falar e de te olhar, mas não consigo impedir as minhas mãos de falarem por mim, de olharem por mim... através das minhas mãos eu vejo-te, eu leio-te... sinto cada palavra no teu silêncio, cada palavra enterrada no teu corpo. Palavras que te deixaram; palavras que nunca disseste. E eu sigo-te... sigo o teu corpo como se fosse espécie de bengala. O teu corpo é luz e é caminho. Eu sou um cego que te segue. Mas fico calado e quieto. Respeito-te porque respeito a tua vontade.


-Deixa-os fechados. Deixa os teus olhos fechados. Assim não sinto vergonha do meu corpo ausente de olhos passados, de mãos passadas. De quartos que ainda hoje transpiram sexo. Eu fiquei lá. Sente esta página. Vê com os dedos os rasgos que deixaram ao lê-la... Sinto as tuas mãos percorreram cada folha de mim... sinto os teus dedos... tocas-me suavemente... tens medo que esta e esta página acabem por desprender-se de mim... Em tempos, pedi-te que me abrisses e me lesses... relê-me outra vez. Lê agora as páginas arrancadas. As minhas páginas arrancadas. As páginas secretas, obscuras... que só um cego consegue ler...


alexandrantunes e Corto_Maltese



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Ain't no sunshine when she's gone

It's not warm when she's away

Ain't no sunshine when she's gone

And she always gone too long anytime she goes away


Wonder this time where she's gone

Wonder if she's gone to stay

Ain't no sunshine when she's gone

And this house just ain't no home

Anytime she goes away





Impressão Digital Cereza às 00:46
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16 comentários:
De Selvagem Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 10:40
Antes de mais devo dizer que não consegui respirar uma só vez enquanto lia o texto... não imaginam como o senti! Queria muito fazer um comentário bonito e profundo mas fiquei sem palavras. Adorei!
"Não digas nada, nem a verdade...
Há tanta suavidade em nada se dizer,
e tudo se entender...
Tudo metade, de sentir e de ver.
Não digas nada, deixa esquecer.Safira
(http://www.bbb.blogs.sapo.pt)
(mailto:saphireonearth@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 11:03
What is a man, what has he got? If not his "book" then he has not! To read the things he truly feels (sees) and not only the sayings of one who plays with words (writes). Fiz desde sempre questão de me apresentar ao mundo e às pessoas como um livro aberto e pleno de folhas em branco, em que cada evento e pessoa importante da minha vida deixe, para ficar a constar, o seu contributo para o grande livro que daria a história da minha vida. Starry-Night
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(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 13:05
Quantas vezes dizemos ou ouvimos: A Minha vida daria um livro. Para uns seria fácil escrevê-lo para outros nem por isso. Existem vivências ao longo da nossa vida que se fossem passadas para o papel .. Vejamos: Escrever por exemplo sobre uma vida que já tem 50 anos? Seria pra muitos necessário que fossem editados vários volumes, porque num só não caberia o que já se viveu. Podemos ser mais simplistas e escrever apenas as memórias mas desconfio que seria exactamente a mesma coisa. Como diz a Starry eu também faço parte de um livro aberto. Sempre deixei que escrevessem o que sentiam, fosse bom ou menos bom. Hoje, tenho umas centenas de páginas escritas, muitas mais do que os anos de vida que já tenho e outras tantas ainda em branco. Mas, resumindo, quando penso num livro com a história da minha vida, páro e penso: Este livro seria mais um dentro dos milhões e milhões de pessoas que existem e seria apenas mais um. Claro que para mim seria a minha história mas comparando com tantas outras ela é apenas uma gota de água num oceano.
Alexandra&Corto-Maltese, o vosso texto está, bem quem o lê "entra nele". Eu entrei mas eu sou parente de extra-terrestres ;-) Beijinhos ..constancinha
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(mailto:ola_cusca@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 13:20
Numa palavra....LINDO...Na minha vida não mudo de página...fecho o livro, guardo-o bem guardadinho no sotão da minha memória, no baú das minhas recordações....E começo outro livro cheio de paginas em branco ávidas de serem preenchidas por sentimentos e afectos, por sonhos e vivências...(agora vou mas é bulir!!!) Beijos aos autores do texto :)))) Pataniska
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(mailto:sissacc@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 15:45
alexandra e corto, só vos quero dar os parabens porque o vosso texto transpira sensualidade. tá perfeito.
jinhos!cereza
(http://bbb.blogs.sapo.pt/)
(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 16:25
Fantástico!!!!Felizes aqueles que se deixam ler....:)**marta
</a>
(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 20:30
Adorei ler o vosso texto alexandra e corto.
O virar da página é um renascimento, uma lufada de esperança, como que se começasse a escrever um livro sabendo que nas páginas em branco há muito que preencher e nesse ponto de partida se pode chegar a mil e um finais para a história que vamos contar...
paly_111
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(mailto:paly_111@iol.pt)


De Selvagem Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 21:38
Li e reli várias vezes o texto, quis escolher uma frase que me dissesse mais, não consegui! Somos realmente um livro, com páginas em branco, onde se escreveu, escreve e escreverá... :) **** Alexandra e Corto^Erina^
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(mailto:paula_m_sousa@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 23:14
gostei de ler o texto..merece um comentário, mas...sei que gostei, transmite um sentimento agradável, somos nós que lá estamos, é real. Beijofrancisco
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(mailto:frisco@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 3 de Junho de 2005 às 01:24
Está bonito o texto, parabéns! Perturbador foi quando resolvi folhear as páginas do livro da minha vida e...ups ...página 1, morenas! página 2, morenas! página 3, morenas! página 11, morenas, página 135, morenas! página 249, morenas ...!!! Morenas, The End ... Um beijo, do Anjo, Maslow
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(mailto:manuel_azevedo@hotmail.com)


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