Quarta-feira, 23 de Março de 2005

SssssHhhh !?

Confesso que nunca fui apreciadora do trabalho do Miguel Esteves Cardoso, muito menos da imagem de intelectual que ele tenta transmitir ás pessoas... Na verdade considero-o um dos homens mais irritantes do panorama cultural português! Mas... tenho de admitir que este texto dele, é muito bom, com grande sentido de humor, e cheio de verdades! Já o tenho há algum tempo, e como sinceramente ando sem paciência e sem cabeça para escrever textos meus, resolvi deixar este aqui.... até porque vale a pena!


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"Já me estão a cansar... parem lá com a mania de que digo muitos palavrões, caralho! Gosto de palavrões! Como gosto de palavras em geral. Acho-os indispensáveis a quem tenha necessidade de dialogar... mas dialogar com caracter! O que se não deve é aplicar um bom palavrão fora do contexto, quando bem aplicado é como uma narrativa aberta, eu pessoalmente encaro-os na perspectiva literária!


Quando se usam palavrões sem ser com o sentido concreto que têm, é como se estivéssemos a desinfectá-los, a torná-los decentes, a recuperá-los para o convívio familiar. Quando um palavrão é usado literalmente, é repugnante.
Dizer "Tenho uma verruga no caralho" é inadmissível. No entanto, dizer que a nova decoração adoptada para a CBR 900' não lembra ao "caralho", não mete nojo a ninguém. Cada vez que um palavrão é utilizado fora do seu contexto concreto e significado, é como se fosse reabilitado. Dar nova vida aos palavrões, libertando-os dos constrangimentos estritamente sexuais ou orgânicos que os sufocam, é simplesmente um exercício de libertação.
Quando uma esferográfica não escreve num exame de Estruturas "ah a grande puta... não escreve!", desagrava-se a mulher que se prostitui.


Em Portugal é muito raro usarem-se os palavrões literalmente. É saudável. Entre amigos, a exortação "Não sejas conas", significa que o parceiro pode não jogar um caralho de GT2. Nada tem a ver com o calão utilizado para "vulva", palavra horrenda, que se evita a todo o custo nas conversas diárias.
Pessoalmente, gosto da expressão "É fodido..." dito com satisfação até parece que liberta a alma! Do mesmo modo, quando dizemos "Foda-se!", é raro que a entidade que nos provocou a imprecação seja passível de ser sexualmente assaltada. Por ex.: quando o Mário Transalpino "descia" os 8 andares para ir á garagem buscar a moto e verificava que se tinha esquecido de trazer as chaves... "Foda-se"!! não existe nada no vocabulário que dê tanta paz ao espirito como um tranquilo "Foda-se...!!". O léxico tem destas coisas, é erudito mas não liberta. Os palavrões supostamente menos pesados como "chiça" e "porra", escandalizam-me. São violentos.


Enquanto um pai, ao não conseguir montar um avião da Lego para o filho, pode suspirar após três quartos de hora, "ai o caralho...", sem que daí venha grande mal à família, um chiça", sibilino e cheio, pode instalar o terror. Quando o mesmo pai, recém-chegado do Kit-Market ou do Aki, perde uma peça para a armação do estendal de roupa e se põe, de rabo para o ar, a perguntar "onde é que se meteu a puta da porca...?", está a dignificar tanto as putas como as porcas, como as que acumulam as duas qualidades.


Se há palavras realmente repugnantes, são as decentes como "vagina", "prepúcio", "glande", "vulva" e escroto". São palavrões precisamente porque são demasiadamente ínequívocos... para dizer que uma localidade fica fora de mão, não se pode dizer que "fica na vagina da mãe" ou "no ânus de Judas". Todas as palavras eruditas soam mais porcas que as populares e dão menos jeito! Quem é que se atreve a propor expressões latinas como "fellatio" e "cunnilingus"? Tira a vontade a qualquer um! Da mesma maneira, "masturbação" é pesado e maçudo, prestando-se pouco ao diálogo, enquanto o equivalente popular "esgalhar um pessegueiro", com a ressonância inocente que tem, de um treta que se faz com o punho, é agradavelmente infantil. Os palavrões são palavras multifacetadas, muito mais prestáveis e jeitosas do que parecem. É preciso é imaginação na entoação que se lhes dá. Eu faço o que posso."



Miguel Esteves Cardoso





Impressão Digital Cereza às 17:45
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11 comentários:
De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 17:58
Confesso que também acho MEC irritante, mas gosto da maneira dele escrever. Tenho de admitir que é uma pessoa inteligente e deu-me um gozo enorme ler as entrevistas que ele fez a algumas personalidades políticas da nossa praça. Este texto que aqui é apresentado, já o conhecia e tem um que ele fez com os nomes de terras que também acho que está muito bem apanhado.^Erina^
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(mailto:paula_m_sousa@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 18:25
E não é que o homem tem razão?
Nunca mais bano ninguem por palavras mal dirigidas. :PPPformasdolhar
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(mailto:formasdolhar@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 18:53
Bem, este texto deu-me vontade para dizer ao Miguel para ir escrever para o ânus de judas, porque o que ele escreveu não vale uma glande e que faria bem melhor em deixar-se de dejectos e passar a nem sequer abandonar os lupanares onde passa a maior parte da vida a arredondar o léxico.Maslow
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De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 19:20
Não venho comentar o texto ...mas sim relembrar os sorrisos que ele me fez simplesmente porque me lembrei de algo acontecido há muito anos. no início da minha actividade...não sendo professora de ciências naturais tive a rica "sorte" de me calhar uma turma só de ninas adolescentes dando essa mesma disciplina. O que eu aprendiiiii....imaginem ter de dar aparelho sexual :)))) o que eu aprendi...elas sabiam todinhos os nomes ( populares e científicos)...claro que como uma pessoa de espírito aberto, aprendi tudinho e me diverti à brava...desculpem lá esta historiazinha que nunca esquecerei:P bejocas doidosMajoca
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De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 19:33
QUÊ??!morgaine
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De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 19:53
Eu acho que isto foi escrito depois de ele ter saido dos ´´Três Pastorinhos``....Só pode!!!!ahahahahmarta
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De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 20:20
" Foda-se" é para comentar isto??? Ai o "caralho" que não me ocorre nada, hehehehehe.
Apesar de não fazerem parte do meu vocabulário também sei. :) JATGO
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(mailto:jatgo@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 20:22
Politicamente e futebolisticamente oposto a mim, eu adoro MEC.
Diz o que pensa.
ÁS vezes sem razão, claro, mas todos nós temos razões por vezes, mas nem sempre.
estou a ler Equador e gosto muito.
Este texto já conhecia, e acho muito engraçado.
Continua a ser critico MEC.anasimplesmente
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De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 21:03
Dizer palavrões não faz o meu estilo, nem gosto em geral de os ouvir. Mas aprecio quem saiba brincar com os palavrões, escrevendo textos como este e outros que tb já aqui apareceram. Agora, não me digam que não seria engraçado ouvir alguém dizer "Vai para a vagina da tua mãe!" ou " vai levar no anús, ó pénis!" lolllllllllll beijocas pra todos ;)alic
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(mailto:mceciliabpm@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 23 de Março de 2005 às 22:44
Os avióes da Lego está bem está...Já as armadilhas que vêm dentro dos ovos Kinder, que ofereço ao meu sobrinho, me poêm a ganir "ai o pénis, ai o pénis.." quando os tento montar, enquanto ele me observa deleitado.Louis_Phere
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(mailto:jmcfilipe@oninet.pt)


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