Quarta-feira, 9 de Março de 2005

Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar!

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Tal como prometi aqui fica mais um impressionante relato sobre o Herói Nacional, que continua a ser esquecido pela nossa história. É preciso juntar esforços e fazer alguma coisa. Ao Francisco já prometi ajudar, e estou a fazer tudo que me é possível, para tentar ajudar na reconstrução da casa de ARM em Cabanas de Viriato. Depois de Francsico SM, recebi este mail de António SM, primo do Francisco. É com muito orgulho que deixo aqui mais um post sobre o Senhor Aristides Sousa Mendes!



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(Trancrevo aqui parte do mail que recebi do António.)
olá Cereza
Voltei de frança onde fui a uma conferência/debate sobre o meu avô,
Aristides Sousa Mendes. Foi organizada pela biblioteca Municipal da cidade de Anglet que fica mesmo ao lado de Biarritz e de Baiona, uma zona onde em 1940 apareceram muitos refugiados e por onde andou certamente Aristides SM salvando-os. Devo dizer que houve um grande entusiasmo em relação à figura de ASM e muitas pessoas incluindo a própria Biblioteca aderiram à Associação Francesa de Homenagens a Aristides de SM. Haverá outras iniciativas a partir deste evento.
Segue como prometido um artigo sobre o enquadramento histórico do gesto de ASM se gostares e achares útil podes pô-lo à disposição dos leitores do Blog.
Até breve, Antonio Moncada de Sousa Mendes





Aristides de Sousa Mendes, o Shindler Português.... ou o contrário?



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(Shindler, ladeado por oficais Nazis - terceiro a contar da esquerda)


Muitas pessoas tendem a comparar o Cônsul português com Schindler ou com Wallenberg, talvez porque estes dois últimos nomes sejam ainda, para alguns mais conhecidos. Mas se tivermos conta dos factos históricos veremos que será mais justo o contrário. De facto o grande especialista em História do Holocausto, Yehuda Bauer, diz de Sousa Mendes que se trata da "maior operação de salvamento realizada durante a segunda guerra mundial por um só indivíduo e contra tudo e todos"In "A History of the Holocaust".
Quando a segunda guerra começa em Setembro de 1939, Salazar envia a todos os postos diplomáticos portugueses ordens bem claras proibindo aos diplomatas de darem vistos de entrada para Portugal a várias categorias de pessoas... " Judeus expulsos dos seus paises de origem" muito em especial. Essas ordens encomtravam-se inscritas na 'circular 14' que entretanto já se tornou ´"tristemente célebre".



Aristides de Sousa Mendes foi não somente o autor da "maior operação de salvamento" cerca de 30000 pessoas, mas foi também o primeiro, num momento em que os alemães entravam em França como grandes vencedores da guerra.... tudo fazia crer que as vitórias alemãs continuassem, como aliás foi o caso até fins de 1943, até à derrota de Stalinegrad.... aí começou tudo a mudar ...Salazar voltou-se para os aliados anglo-americanos e começou a negociar o empréstimo das Lages nos Açores.


Schindler que tinha uma fábrica na Polónia onde trabalhavam judeus, começou a pensar que talvez fosse bom para ele, protegê-los. No fim da guerra salvou mais de 1000 vidas e salvou a pele!
Em 1944 depois da invasão da Normandia, a Suécia envia Wllenberg para a Hungria com a missão de "proteger judeus". Este organiza uma rede de casas de protecção onde viverão judeus sob a protecção da Suécia e de outros paises neutros, salvando assim mais de 100000 judeus... estava-se em 1944 e 1945.


Hoje cada vez mais os historiadores de todo o mundo reconhecem que ASM, o Cônsul de Portugal em Bordéus foi o primeiro e foi ele a abrir a porta de Portugal aos refugiados e como diz a Dra Manuela Franco, ex- secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros " é a Aristides de Sousa Mendes que se deve o epíteto Portugal- porto de esperança.
Antonio Moncada de Sousa Mendes



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(Visto passado por ASM)





Encontrei um site muito interessante na net… transcrevo aqui algumas passagens:
O RABINO KRUGER


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(Rabino Kruger e ASM)



“…Pelas ruas de Berlim judeus são perseguidos, espancados e mortos - é que nos escrevem, é que nos dizem, é o que lemos, oi gewalt. O meu nome é Chaim Kruger e sou rabino numa klein statle, num pequeno povoado. “A guerra é inevitável”, prevejo, “e em breve os nazis estarão aqui”. Não é fácil mas, com economias feitas penosamente, com a minha mulher e as nossas seis crianças, em 1938 conseguimos escapar de Varsóvia para Bruxelas…”


“…Para fugir à hecatombe, agora a nossa esperança é chegar à fronteira, atravessar a Espanha, entrar em Portugal e dali embarcar para América, onde parentes nossos esperam por nós.
Chegamos a Bordéus em Maio de 1940 e a cidade está repleta de fugitivos. Procuro o Consulado espanhol para obter o visto no passaporte da minha família mas um funcionário diz-me que sem antes obter o visto português não conseguirei o espanhol….”



“…- Quem é o Dr. Mendes?
- É o Cônsul de Portugal em Bordéus, Dr. Aristides de Sousa Mendes.
Mendes, Mendes... O nome bate-me nos ouvidos, reconheço-o, é marrano, é judeu. Tenho que falar com o Dr. Mendes.


Dirijo-me ao Consulado de Portugal. O jardim e as ruas vizinhas estão repletas de refugiados, todos a aguardar vistos para seguirem viagem, são milhares em desespero. Identifico-me, peço para falar com o Dr. Mendes. Três horas depois sou recebido. É um cavalheiro muito distinto, porém com feições angustiadas. Deve estar a viver uma grande tragédia, bem posso imaginar qual seja ela. Apresento-lhe a minha mulher e os meus filhos, conto-lhe do nosso êxodo de Varsóvia até Bordéus. Entende o meu sofrimento porque também ele tem muitos filhos, acho que doze.



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(ASM, a esposa, e os filhos)



Convida-nos a pousar em sua casa para darmos algum descanso às crianças. Aceito, agradeço e pergunto-lhe se também ele é judeu. Sorrindo, esclarece:
- Rabi, não se iluda com o meu apelido Mendes. Até onde eu posso rastear, a minha família, há pelo menos cinco gerações, é de católicos fervorosos. Se, por acaso, tivemos um ancestral judeu, não é nada que nos desmereça, mas disso não temos conhecimento.


Errei o alvo, main mazle, má sorte a minha,... Não sei como continuar a conversa. Engasgo-me. Depois ouso perguntar-lhe quando podemos contar com os vistos para seguir viagem para Portugal. Acabrunhado, diz-me que nada pode garantir, ainda não tem a necessária autorização do seu Governo.
- Então, Dr. Mendes, vamos ficar aqui em Bordéus à espera da matança?
Levanta-se. Amargurado, segura-me o braço.
- Rabi, tenha fé, nem tudo está perdido, confie na Divina Providência.
Conduz-nos a sua casa, que fica no Quai Louis XVIII, por trás do Consulado. Apresenta-nos à sua esposa, D. Angelina, e a três dos seus filhos mais velhos. Indica os aposentos que nos destina. Deseja-nos um bom descanso. Apesar de gentio, apesar de goi, este Dr. Mendes is a Mensche, é realmente um Homem…”



“…É um espanto, este Dr. Mendes. Na manhã do dia 17 de Junho de 1940 avisa-me:
- Rabi, sossegue, vou passar vistos a toda gente.
Nos dias 17, 18 e 19, ele e dois dos seus filhos mais velhos trabalham sem parar, nem sequer para almoçar ou jantar, exaustão. Passam milhares e milhares de vistos, os refugiados já organizados em filas. Os passaportes são colectivos, familiares. No meu constam oito nomes, o meu, o da minha mulher e os dos meus filhos. Assim acontecendo com quase todos, calculo que o Dr. Mendes, nesses três dias, tenha passado uns 30 mil vistos, dos quais 10 mil a judeus, pelo menos.
Não se dá por contente. Obedecendo às instruções que recebera de Lisboa, o Cônsul de Portugal em Bayonne recusa-se a passar vistos aos refugiados de guerra. Porém o Dr. Mendes é seu superior. Desloca-se a Bayonne, que fica junto da fronteira franco-espanhola, e é ele-mesmo quem, mais uma vez, passa milhares de vistos.
O mesmo acontece com o Consulado de Portugal em Hendaye. Também aí o Dr. Mendes passa milhares de vistos.
No dia 24 de Junho o Dr. Mendes mostra-me e traduz-me um telegrama que acabara de receber. É chamado imediatamente a Lisboa e acusado por Salazar, o Primeiro Ministro português, de “concessão abusiva de vistos em passaportes de estrangeiros". Depois de 32 anos de serviço, o Dr. Mendes vai ser demitido sem receber qualquer reforma ou indemnização, e 12 filhos tem ele para criar. Já teve 14, mas morreram 2, o segundo e o último, se não estou em erro. Cuidar de 12 filhos é obra! Eu que o diga, que só tenho 6 e bem sei como custa criá-los. Compadeço-me, voz embargada, ihre mazle, má sorte a sua. Mas é ele quem atalha, quem me anima:
- Rabi, se tantos judeus sofrem por causa de um demónio não-judeu, também um cristão pode sofrer com o sofrimento de tantos judeus...
A grosse Mensche, um grande Homem!...”






“O meu nome é Schmil Goldberg. Mas, se quiserem, podem tratar-me por Samuel. Sou judeu e americano.


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(Schmil Goldberg)



Em 1941 estou em Portugal para dar assistência a refugiados de guerra, trabalho voluntário. Na Cozinha organizada pela Comunidade Israelita de Lisboa tenho a oportunidade de conhecer o Dr. Aristides de Sousa Mendes. Foi ele o diplomata, o Cônsul que, em França, passou milhares e milhares de vistos a judeus fugidos do nazismo. Uns já partiram para a América, outros ainda estão em Portugal. Também prestamos auxílio ao Dr. Sousa Mendes, pois ele e a família estão muito carenciados. Foi demitido, não recebe qualquer pensão do Governo e, apesar de licenciado em Direito, está proibido de exercer a advocacia e os seus filhos foram impedidos de frequentar a Universidade. O seu irmão, que era embaixador, também foi demitido. Vê-se que Salazar jamais perdoará o gesto humanitário do Dr. Sousa Mendes. Num povoado do Distrito de Viseu, o ex-Cônsul possui um palácio onde chegou a albergar muitas famílias de refugiados, às quais, em França, passara vistos para entrada em Portugal. Mas, para atender às necessidades da sua numerosa família, foi obrigado a hipotecar todo o recheio.


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(A casa em ruínas de ASM, em Cabanas de Viriato - futuro museu do holocausto)



O Dr. Sousa Mendes já não dispõe de meios financeiros para sobreviver, está condenado à miséria. Temos o dever de auxiliá-lo e auxiliamos. Até lhe proporcionamos condições para que alguns dos seus filhos emigrem para os Estados Unidos e Canadá. Os que lá se estabelecerem mandarão cartas de chamada para os outros, estou certo disso.”




“…Lisboa, 3 de Abril de 1954. Estou no Hospital da Ordem Terceira, na Rua Serpa Pinto. Abro a mala, retiro o lenço, enxugo os olhos. O meu tio, Dr. Aristides de Sousa Mendes, acaba de falecer, trombose cerebral agravada por pneumonia. A sua esposa, a minha tia Angelina, morreu em 1948 com uma hemorragia cerebral e ficou vários meses em coma, coitada. Todos os seus filhos, meus primos, vivem hoje nos Estados Unidos e no Canadá, conseguiram escapar a tempo deste purgatório... Sou eu a única familiar presente. O meu tio era um homem bom, sempre a pensar no bem dos outros. É por isso que morre pobre e desonrado.”



Trabalho de Fernando Correia da Silva
in:www.vidaslusofonas.pt/sousa_mendes.htm



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(Uma rosa para ASM)


Impressão Digital Cereza às 23:34
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16 comentários:
De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 00:13
Já referi isto no outro comentário que fiz, sobre o Dr.Aristides Sousa Mendes, ajudo no que me for possivel para que de uma vez por todas a sua pessoa seja verdadeiramente reconhecida. E torno a apelar para que se reconstua a casa de Cabanas de Viriato, que seria o minimo a fazer por uma pessoa que só nos pode encher de orgulho.formasdolhar
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(mailto:formasdolhar@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 01:30
No que eu puder ajudar a imortalizar e o que for necessario para lembrar tal heroi, eu ajudarei...Criador_Sonhos
(http://criadorsonhos.blogspot.com)
(mailto:miguel24lx@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 10:45
Paulo quero-te agradecer muito por este texto...ASM é um tema muito querido neste blog.É lindo ver uma familia fazer tudo por udo para ver ASM no lugar que merece da história de Portugal. O objectivo agora é reconstruir a casa de Cabanas, da minha parte estou a fazer todos os possiveis como disse ao teu primo Francisco, mas as coisas levam o seu tempo. Desejo boa sorte a todos! cereza
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(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 11:36
Em Israel plantaram 10 mil árvores em sua honra.Em França e no Canadá existem Parques com o seu nome.Gostaria de ver a casa de Cabanas de Viriato reconstruida e que fosse local,onde se desse a conhecer toda a importância que Aristides Sousa Mendes teve, salvando indiscriminada e desinteressadamente milhares vidas.marta
</a>
(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 11:59
E assim vou estando mais rica....aqui neste blog...BeijooooMajoca
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(mailto:manejorge@mail.telepac.pt)


De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 12:11
O embaixador Aristides Sousa Mendes é apenas -- e pretendo que neste "apenas" caiba toda a dimensão da nossa miséria mental -- um exemplo gritante de um país que venera a humanidade alheia e persegue a que lhe coube em azar. Actuou certo no momento mais desgraçadamente errado da humanidade, e se lhe recusaram o prémio do reconhecimento que nunca pretendeu, presentearam-no com a perseguição cobarde, baixa e mesquinha que continua a grassar num país onde já nada me surpreende, pois chegou ao luxo de ter como 1º ministro um produto de televisão que se gabava de gostar de se sentar no lugar preferido de Salazar, durante os meses em que foi figurante em S. Bento.



Jorge Fallorca
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(mailto:naodoupormotivos@obvios.pt)


De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 12:59
Quero agradecer ao escritor Jorge Fallorca pelas palavras dele :) A classe intelectual tem sempre um papel importante nestes assuntos! obrigada!
Já cá tivemos o Pedro Tochas, o Francisco e o António Aristides Sousa Mendes e agora o Jorge Fallorca... acho que falo pelo pessoal todo, sentimo-nos muito lisonjeados.cereza
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(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 13:16
Já uma vez tive oportunidade de me referir á dignidade com que descendentes do Dr. Aristides Sousa Mendes lhe estão a prestar homenagem. Neste caso, em que essa homenagem é ilustrada com o relato de um dos directamente beneficiados com a vida, própria e da familia, devido à extraordinária humanidade de um homem, resta-me humildemente reconhecer que de muito pouco tenho que me orgulhar. A verdadeira herança de um homem, a imortalidade, está conquistada quando a memória desse homem não se esgota. Façamos um favor a nós próprios preservando a memória do Dr. Aristides Sousa Mendes. Manuel AzevedoMaslow
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(mailto:manuel_azevedo@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 15:23
Texto que li algures, num blog, sobre um livro de William Styron- A Escolha de Sofia, que deu origem a um filme protagonizado por Meryl Streep : " A declaração mais profunda jamais feita a respeito de Auschwitz não foi uma declaração mas sim uma resposta.
A pergunta - Diga-me, em Auschwitz, onde estava Deus?
A resposta - Onde estava o Homem?"
Possivelmente, em Junho de 1940, Bordéus seria também uma cidade sem Deus...mas só isso.Louis_Phere
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(mailto:jmcfilipe@oninet.pt)


De Selvagem Anónimo a 10 de Março de 2005 às 18:29
Nem que escreva para todos os jornais regionais, sobre ASM e a incentivar ajudas para a reconstrução da casa de Cabanas de Viriato, que eu desconhecia a existência até agora :). ASM merece uma homenagem pela vida que teve, uma vida cheia de benemerências que é um titulo de glória para a terra onde nasceu.Morgaine
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(mailto:lab_marta@hotmail.com)


De swerter zomader a 28 de Junho de 2014 às 08:45
Bom dia Todo mundo ler esta história verdadeira vida de minha vida. Meu nome é zomader swerter de Portugal, uma mãe solteira com dois filhos. eu tenho sido envolver em tantos golpe na internet tomando meu disco ganhar dinheiro, à procura de um empréstimo de consolidação, até que uma noite fiel, eu orei e eu acredito que Deus me dirigiu a esta empresa de empréstimo na internet pelo nome Stella Rene Loan Firm, e-mail {mrsstellareneloanfirm@hotmail.com} eles me ajudaram com 250 000 00 e após bons oito meses contatando tantos credores falsos na net, por favor, meu povo, ter muito cuidado obtenção de empréstimo com taxa inicial de garantia e confirmação de que a empresa é legal este empresa de empréstimo veio em meu socorro quando eu mais precisava deles, num primeiro momento eu nunca confiar neles, mas depois de conhecer-se a sua demanda, eu era uma mulher feliz, que é a coisa mais importante na vida de hoje i consolidar a minha dívida e também estou orgulhoso de meu próprio apartamento minha mãe e dois amigos beneficiaram desta oferta, e eu também quero todo o país a beneficiar desta oferta generosa.

swerter zomader


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