Sábado, 26 de Fevereiro de 2005

Sexo na cabeça

Encontrei este texto fantástico na net! Fala sobre sexo, mas numa perspectiva muito engraçada e interessante. sexo! divirtam-se!



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"Você tem o sexo na cabeça, rapaz. E aí, definitivamente, não é o lugar dele."
Mae West


Lembro-me como se fosse há 8 bilhões de anos. Eu era uma célula recém-chegada do fundo do miasma e ainda deslumbrado com a vida agitada da superfície e você era de lá, um ser superficial, vivida, viciada em amônia, linda, linda. Nós dois queríamos e não sabíamos o quê. Namoramos 1 milhão de anos sem saber o que fazer, aquela ânsia. Deve haver mais do que isto, amar não deve ser só roças membranas. Você dizia "Eu deixo, eu deixo" e eu dizia "O quê? O quê?", até que um dia, um dia minhas enzimas tocaram as suas e você gemeu, meu amor, "Assim, assim!" E você sugou meu aminoácido, meu amor. Assim, assim. E de repente éramos uma só célula. Dois núcleos numa só membrana até que a morte nos separasse. Tínhamos inventado o sexo e vimos que era bom. E de repente todos à nossa volta estavam nos imitando, nunca uma coisa pegou tanto. Crescemos, multiplicamo-nos e o mar borbulhava. O desejo era fogo e lava e o nosso amor transbordava. Aquela ânsia. Mais, mais, assim, assim. Você não se contentava em ser célula. Uma zona erógena era pouco. Queria fazer tudo, tudo. Virou ameba. Depois peixe e depois réptil, meu amor, e eu atrás. Crocodilo, elefante, borboleta, centopéia, sapo e, de repente, diante dos meus olhos, mulher. Assim, assim! Deus é luxúria, Deus é ânsia. Depois de bilhões de anos Ele acerta a fórmula. "É isso!" gritei. "Não mexe em mais nada!".


- Quem sabe mais um seio?
- Não! Dois está perfeito.
- Quem sabe o sexo na cabeça?
- Não! Longe da cabeça. Quanto mais longe melhor!
Linda, linda. Mas algo estava errado. Não foi como antes.
- Foi bom?
- Foi.
- Qual é o problema?
- Não tem problema nenhum.
- Eu sinto que você está diferente.
- Parvoice sua. Só um pouco de dor de cabeça.
- No caldo primordial você não era assim.
- Nós mudamos, não é? Nós não somos mais amebas.


E vimos que era complicado. Nunca reparáramos na nossa nudez e de repente não se falava em outra coisa. Você cobriu seu corpo com folhas e eu construí várias civilizações para esconder o meu. "Eu deixo, eu deixo - mas não aqui." - Não agora. Não na frente das crianças. Não numa segunda-feira! Só depois de casar. E o meu presente? Depois você não me respeita mais. Você vai contar para os outros. Eu não sou dessas. Só se você usar um quepe Gestapo. Você não me quer, você quer é reafirmar sua necessidade neurótica de dominação machista, e ainda por cima usando as minhas ligas pretas. O quê? Não faz nem três anos que mãe morreu! Está bem, mas sem o chicote. Eu disse que não queria o sexo na cabeça, Senhor!
- Nós somos como frutas, minha flor.
- Vem com essa...


- A fruta, entendeu? Não é o objetivo da árvore. Uma laranjeira não é uma árvore que dá laranjas. Uma laranjeira é uma árvore que só existe para produzir outras árvores iguais a ela. Ela é apenas um veículo da sua própria semente, como nós somos a embalagem da vida. Entende? A fruta é um estratagema da árvore para proteger a semente. A fruta, se soubesse a importância que nós lhe damos, enrubesceria como uma maçã na sua modéstia. Deixa-me só desengatar o sutiã. A fruta não é nada. O importante é semente. É a ânsia, é o acido, é o que nos traz de pé neste sofá. Digo, nesta vida. Deixa, deixa. A flor, minha fruta, é um truque da planta para atrair a abelha. A própria planta é um artifício da semente para se recriar. A própria semente da semente, chega para cá um pouquinho. Linda, linda. Pense em mim como uma laranja. Eu só existo para cumprir o destino da semente da minha semente. Eu estou apenas cumprindo ordens. Você não me está a negar. Está a negar os desígnios do Universo. Deixa.


- Está bem. Mas só tem uma coisa.
- O quê?
- Eu não estou a tomar a pílula.
- Então nada feito.


Mais, mais. Um dia chegaríamos a uma zona erógena além do Sol. Como o pólen. Meu amor, no espaço. Roçaríamos nossas membranas de fibra de vidro, capacete a capacete, e nossos tubos de oxigênio se enroscariam e veríamos que era difícil. Eu manipularia a sua bateria seca e você gemeria como um besouro eletrônico. Asssssiiiim. Asssssiiiim.


Um dia estaríamos velhos. Sexo, só na cabeça. As abelhas andariam a pé, nada se recriaria, as frutas secariam. Eu afundaria na memória, de volta às origens do mundo. (O mar tem um deserto no fundo). Uma casca morta de semente, por nada, por nada. Mas foi bom, não foi?



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Luís Fernando Veríssimo



Impressão Digital Cereza às 01:27
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27 comentários:
De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 01:31
Tudo isto pq eu falei da industria cinematografica da pornografia indiano :PFonz
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(mailto:malcato@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 01:36
Lolll fonz, minha coisa maiss lindaaaaaaaaa! muahCereza
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(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 10:09
Adoro estas histórias! Ainda há pouco tinha aqui um emxerto semelhante sobre as orquídeas e de como elas se assemelham às mulheres, não foi Maslow? São tão verdadeiros estes textos, relatam a epopeia da evolução de tudo o que é vida, desde as primeiras células até ao maiis complexo dos seres, que somos nós. Ao ler o texto vemos ali os hábitos e comportamentos que nos pertencem, obedecendo a leis e princípios imutáveis que são os princípios da vida, e reconhecemos ali que há em qualquer ser vivo, uma parte de nós! Creio que há algo na bíblia que diz: "toda a carne é erva". E de facto, sem a erva não havia entrecosto para ninguém.. Um texto belissimo sem dúvida!! MorgaineLaFaye
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(mailto:lab_marta@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 11:33
VIVA AS CELULAS!!!!nita_
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(mailto:pulguina_9@msn.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 11:51
Ai que pena que os coacervados da sopa primordial não se tenham "coacervado" assim!... lolllllllllll Na conquista da multicelularidade, tinha de haver umas parvas de umas células snobs, com a mania que são superiores a ir para a cabeça ditar ordens e estragar a festa! grrrrrrrrrrrrrrrrr!!! Mas a gente lixa-as!! Ó se lixa!! lollllllllllllllllll Beijosssss Cereza, o texto está muito bem apanhado ;)alic
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(mailto:mceciliabpm@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 12:11
´´Ele`` não acertou na fórmula!!!Dizemos as mesmas palavras,fazemos os mesmos gestos,quando se faz amor ou sexo.A Diferença sente-se depois,no vazio que se sente....O texto está magnífico.Gostei!!:))marta
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(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 12:30
Sexo na cabeça ou a cabeça no sexo? É que, para mim, não coexiste nenhuma dúvida de que, sendo duas coisas diferentes, uma não subsiste sem a outra. Eu sou bastante ignorante quanto ao que se passava nessa época distante em que amebas (para mim só teria servido se existissem amebas morenas, belíssimas) roçavam membranas e se entretinham indecentemente nesse caldo sexual de proporções bíblicas. Mas creio reconhecer similaridades com o actual panorama. Um pouco menos líquido, um pouco menos unicelular (não obstante a existência de alguns cérebros que enfim), mas quanto ao permanente roçar de membranas é praticamente um dejá vue em relação a esses tempos imemoriais. Eu próprio sou como que a recriação em tempo real do resultado da evolução. Como lhes disse, com o sexo na cabeça e com a cabeça no sexo. Um beijo, morenas belíssimas, deste V/ anjo (não ameba), MaslowMaslow
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(mailto:manuel_azevedo@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 12:32
Marta, havendo sexo, há amor, por mais ténue e frágil que seja!Starry-Night
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(mailto:martiniquex@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 12:49
Starry não concordo, pode haver sexo sem amor.... pode haver sexo apenas pela atracção e o desejo. agora o ideal é de facto é haver sexo com amor!cereza
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(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 26 de Fevereiro de 2005 às 13:10
Cereza, chama o que quiseres aos sentimentos que de uma forma ou de outra podem levar duas pessoas a envolverem-se sexualmente. Eu prefiro chamar de amor, reconhecendo, claro, que amor tem um não mais acabar de vertentes.Starry-Night
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(mailto:martiniquex@hotmail.com)


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