Domingo, 20 de Fevereiro de 2005

Uma mulher de Coragem: My Immortal

Fiquei sem palavras quando recebi este testemunho da Morgaine. Li e pela primeira vez na curta existência deste blog, fiquei com um nó na garganta. Disse isso à Morgaine, e ela respondeu: não quero que tenhas pena de mim! Não tive, apenas não esperava um história de vida tão forte, e escrita de uma maneira tão linda e directa. Morgaine és a beleza em pessoa!



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"Eu tinha 5 ou 6 anos.. e brincava como todas as miúdas da minha idade, nos pátios e recreios disponíveis junto às habitações e embora fosse uma cidade, era a cidade das luzes, do amor, dos campos Elíseos, era a minha cidade.



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Quando mudamos para uma vila mais pacata, erguia-se à minha frente um enorme edifício de côr branca e amarela, onde se vislumbrava muito movimento, de uma zona alta do terraço, sentava-me horas e horas a observar pessoas minúsculas os carros, ambulâncias e helicópteros. Estava perante um dos maiores hospitais da Europa especializado nos tratamento do cancro. E vi-me com 7, 8, 9 e 10 anos a crescer em frente à casa da Morte como eu lhe chamava, porque via quase todos os dias carros funerários entrando e saindo.



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Quando a minha mãe me deixava sair à rua com as minhas vizinhas ,íamos passear, andar de patins ou bicicleta para as pistas construídas para o efeito; E conheci- os. Conheci aqueles seres humanos que ali passeavam de braço dado com alguém, crianças, idosos, vi de tudo. Eram italianos, árabes, espanhóis, turcos.. e sendo o italiano uma mistura de português com francês, lá travei autenticas amizades com um rol de pessoas que me ficarão para sempre no coração. Poucos sobreviveram ao cancro que os atingia. Os que sobreviveram, apesar de a milhares quilometros de distancia de mim, continuamos unidos pelas palavras e pela amizade!



E assim fui aperfeiçoando o meu italiano, fui aprendendo algumas palavras em árabe e a conhecer os costumes e tradições destes povos. Aprendi a fazer “couscous” e “pasta” com tomate a sério! E quando o sol se punha lá me despedia dos meus amigos doentes e ia para casa resignada. “Mãe, quando for grande quero ser médica e cientista! Quero ajudar a curar as doenças para mais ninguém sofrer”. E a minha mãe chorou. Não sabia porquê...
Nem queria saber aliás.. eu tinha um sonho! Tinha os meus sonhos e ninguém me disse o contrário. Eu queria ser médica, cientista, casar e ter uma casa e cinquenta bebés todos iguais e loirinhos como eu era. Eu queria o meu microscópio de plástico, os meus bisturis pinças e as minhas amostras, queria ir ajudar o Louis Pasteur a descobrir outra vacina.. Eu queria.. e tinha 13 anos.
Tornei-me frequentadora fanática da biblioteca local, onde sempre que podia devorava livros e obras de tudo o que me interessava. Apercebi-me que decorava com muita facilidade certas coisas e ia para casa a recitar os textos mentalmente. A minha mãe continuava a chorar. Não sabia porquê...



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A música começou a incomodar-me.. que raio de barulho é este?? Nas aulas parecia desatenta disse a professora,; as aulas de ginástica tornam –se penosas, as caminhadas, as dores... estava diferente. Ouvia os médicos a sussurrar, não há nada a fazer, antes dos 20 anos, vegetal, cadeira de rodas, não sobrevivem muito mais tempo. Agora percebia porque a minha mãe chorava... Mas eu continuava com os meus sonhos. Tinha uma doença desconhecida misteriosa, dessas modernas que afectam o sistema nervoso e muscular, sem hipóteses de cura. No máximo, ia aguentar até aos 20 altura em que os pulmões deixam de funcionar..



Estou em Portugal porque o sol aqui é melhor diziam eles lá, o clima é melhor. E continuo portadora de uma doença “Sem Nome”. Tenho 35 anos e não morri, não estou na cadeira nem sou um vegetal. Casei e tenho um homem fantástico. Tirei o curso na universidade mas tive de largar o sonho de ser médica por razões óbvias. Mas pertenço ao mundo dos cientistas! E sempre que sinto que ajudei alguém é um vazio que é preenchido. E enquanto aguardo que esta coisa sem nome me vá roubando o que de mim resta, me tira o fôlego em dias e noites de agonia, sempre que me esqueço dela, renasço outra vez. Tudo o que dói acaba por passar até doer de novo. E lembro-me sempre dos meus italianos, árabes e turcos e dos raios de sol que me traziam todos os dias."



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Por favor, amigos, eu digo sempre, quem tem saúde tem tudo. A vida é mesmo uma dadiva. Sejam felizes, mas com aquilo que têm!



MorgaineLaFaye



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”…These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase


When you cried I'd wipe away all of your tears
When you'd scream I'd fight away all of your fears
And I held your hand through all of these years
But you still have
All of me…”



Impressão Digital Cereza às 19:15
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50 comentários:
De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 19:57
MorgaineLaFaye dizes : Sejam felizes, mas com aquilo que têm! Infelizmente as pessoas andam demasiado ocupadas para se lembrarem o quanto é bom cá estar apesar de tanta coisa menos boa. TU, pertences ao grupo das pessoas que dão valor ao que têm, tiram partido de tudo e vivem o dia a dia, porque o ontem já passou e o futuro ninguem sabe o que é. Tento nunca ser "lamechas" mas ao ler o teu texto chorei não só porque sei o que é viver na perspectiva de ... como a tristeza que sinto quando constacto que as pessoas desperdiçam o mais pequenino pormenor que se lhes depara, apenas porque pensam que a elas não lhes acontece e, só darão valor,se derem, um dia ... se, se virem confrontadas com a tal perspectiva de ... Era tão bom, que as pessoas parassem e reflectissem mas que não se esquecessem logo de seguida. Sabes ? Senti-me acompanhada , Obrigada pelas tuas palavras
beijinhos

constancinha
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(mailto:ola_cusca@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 20:21
Quero comentar, mas faltam-me as palavras! Morgaine ultimamente temos falado muito, e já vi que és uma pessoa cheia de alegria, e eu gosto!muita força para ti linda... e se eu puder ajudar, é só dizeres. gosto muito de ti :)Cereza
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(mailto:lis_tv@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 20:26
Morgaine, mulher de coragem és tu, não eu.
Sinto-me pequenina ao pé do teu relato.
Só foi pena não etres sido médica, serias excelente.
Mas perdeu-se uma médica, mão não uma excelente e linda pessoa.
Nem sei que dizer mais.
Sinto-me mesmo pequenina.
Força e não desistas de nada.anasimplesmente
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(mailto:ana_pcf@nectabo.pt)


De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 20:34
Depois do que li, não me apetecia dizer nada, apenas ficar com o pensamento de uma mente sublime, elevada. Que Deus te dê saúde, a mesma que até agora te fez sentir afortunada, apesar de tudo. Não precisas de muito para ser feliz.
Bem hajas, Morgaine...francisco
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(mailto:frisco@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 20:40
Meu Deus!!Não aguentei!!Estou a soluçar...Tenho de te dizer Morgaine e tenho de vos dizer,acho que devo!!Mas por favor não sintam pena!!(como eu te entendo Morgaine)Foi simplesmente por isto,que não vos disse quem eu era,e assinei como sendo a Mãe do Afonso,no post de janeiro.O Afonso aos 2 anos,foi-lhe dignosticado,uma doença neuro-muscular(não identificada).Durante 10 anos foi perdendo todas as faculdades,deixou de andar,de se sentar,de falar,de rir e por fim de respirar.Durante 10 anos dormi acordada.Quantas noites o reanimei,porque durante o sono,parava de respirar.Ficava sempre com a duvida,se o deveria ter feito,se não seria melhor deixa-lo partir.Nunca o consegui deixar de o fazer..Estas doenças e tantas outras,MALVADAS,por existirem!!!!Por isso VIVE Morgaine e AMA,sobretudo AMA E MUITO!!!!todos aqueles que te rodeiam.Nenhum de nós sabe se o amanhã chegará!!!.....ps:Não deixei de acreditar em Deus,foi e continua a ser a minha força.Um forte abraço para ti,e estarei á tua disposição para o que necessitares*****marta
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(mailto:martax_30@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 20:41
ohhhhhh possa assim n pode ser ... tem algum jeito eu estar aqui a chorar? ohhhhhh valha-me Deus.... que s pode dizer perante um testemunho destes? rien de rien.... ohhhhhhhh MorgaineLaFaye um beijo mas daqueles assim do meu tamanho tás a ver cheiinho de coragem :) ************************


ps: cereza .... no fim do mês a factura dos klenex vai ter a tua casa :Plaskinha
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(mailto:xana_granja@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 20:44
:') Dificil de dizer alguma coisa.. Cada dia nos dá uma lição de vida. Cada vida (que não a minha) me dá uma nova razão para lutar e acreditar. Morgaine, és um grande exemplo de coragem e determinação. Muitas, muitas felicidades! Mesmo. Apesar de não te conhecer desejo-te tudo de bom. Força! ***Succubus
(http://sukkub.blogspot.com)
(mailto:merylin.ruth@gmail.com)


De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 20:45
Marta, também me puseste a chorar.
Tantas mulheres de coragem, que andavam escondidas.
Deitem para fora faz bem.
Força minha gente.anasimplesmente
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(mailto:ana_pcf@nectabo.pt)


De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 21:33
MorgaineLaFaye, nem sabes como me senti ao ler o teu texto, chorei sim!!!! (agora últimamente também não faço outra coisa) e senti uma pena enorme, mas a pena que senti não foi de certeza de ti! mas de mim. Somos realmente uma raça mesquinha e a alguns pelos vistos só lhes falta um bocado de sarna para se coçarem. Obrigado pelo teu testemunho e Obrigado a ti também constancinha, é bem verdade que alguns andam demasiado preocupados com a sua pequenez. Neste momento para mim, posso dizer que foi uma lição de vida. Um beijo de agradecimento para as duas! :)^Erina^
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(mailto:paula_m_sousa@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 20 de Fevereiro de 2005 às 21:37
Andamos demasiado ocupados com a nossa vidinha, com o nosso egoísmo, com a nossa mesquinhês para nos apercebemos q afinal somos apenas mais uma formiguinha em cima deste mundo... O teu blog Cereza, faz-nos parar..faz-nos pensar q afinal o mundo n gira à volta do nosso umbigo, q afinal há gente maravilhosa e cheia de força q nos dão uma lição de vida e de coragem...e esta gente maravilhosa está aqui tão perto de nós...e é tão real...Morgaine, não percisas concerteza das minhas palavras para te darem essa força de viver q existe em ti desde q nasceste...mas obrigada pelo teu partilhar e aqui te deixo um BEIJO do tamanho do mundo....Marta nada neste mundo te reconfortará na tua dor mas o simples facto de a partilhares só prova mais uma vez a LINDA mulher q és...para ti um abraço daqueles q só os amigos nos dão....(gotaria de dizer mais alguma coisa...mas tenho a voz embragada, o coração pekenino e os dedos não acertam com as teclas para escrever o q sinto...)PataniscaLight
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(mailto:Sissacc@hotmail.com)


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