Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2005

Anjinho Gabriel

Ai o que eu me ri já com este texto! Muito humor do...Louis_Phere!



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Quando era miúdo, tal como muitos de nós, andei na catequese. Recordo-me de na altura, tanto a catequese como as confissões serem após a missa tendo que um de nós ir avisar o padre à sacristia se houvesse alguém para se confessar. Por norma calhava-me a mim na rifa e quando lá chegava ao pé do padre Ramos (assim se chamava) ele ou me dizia 'já vou' ou 'está bem'. Mas sempre que lá estava a D. Catarina que, à altura, era uma trintona cheia de saúde e que se vestia com um look já 'muito à frente', como dizem os putos agora, o padre dizia-me invariavelmente 'obrigado meu anjinho Gabriel'. Só mais tarde vim a perceber a fina ironia quando descobri que o Arcanjo Gabriel é o portador de boas novas.


Tudo se ia passando até que um dia lá o nosso sacristão, que ainda era novo por sinal, lhe deu um ataque cardíaco e foi desta para melhor. O padre Ramos, em estado de aflição, para ajudar à missa destacou logo a mão de obra disponível mais próxima. Saiu-me a fava a mim, ao Bruno ainda hoje meu grande amigo, e que era da minha idade e o Ricardo, que era dois ou três anos mais novo que nós e sobrinho do padre. Tínhamos como tarefa na altura encher os galheteiros antes da missa e fazer as hóstias. Isso mesmo…fazer as hóstias. Aquilo vinha numas folhas rectangulares fininhas e grandes e nós com umas pequenas tenazes que só me fazem lembrar aquelas das gelatarias (uma para as hóstias pequenas - as da plebe e outra para as hóstias grandes – as do padre) lá íamos picotando as folhas e iam saindo as hóstias e ficando umas aparas do que sobrava.


O Bruno que era um tipo com um feitio sui generis (já na altura coleccionava asas de mosca que guardava em caixas de fósforos enquanto nós fazíamos a colecção de cromos do Espaço 1999) lembrou-se de nos desafiar, já que trabalhávamos, para ir provando umas hostiazitas das pequenas à socapa do padre. Eu fiquei estarrecido e disse-lhe logo que nem pensar e o Ricardito idem idem, aspas aspas. Lá acordámos que ele podia ir debicando umas hóstias das pequenas enquanto nós mastigávamos as aparas sobrantes. Só que o Bruno, com o andar da carruagem, depressa se pôs à vontade e até se dava ao luxo de encastelar às 5 e às 6 tipo sanduíche, e eu martirizado com aquilo…Até que um belo domingo, cheguei mais atrasado, não sei porquê, e fui dar com o Ricardito escondido na sacristia a papar hóstias deliciado. Para mim deixou de ser uma questão de fé e passou a ser uma questão de orgulho ferido…a partir desse dia devorei hóstias das pequenas, das grandes, à unidade, aos pares e aos molhinhos, conforme o stock e consoante a disposição. Este festim herege só foi interrompido quando o padre nomeou para as nossas funções de assessoria eclesiástica, um alfaiate lá vizinho dele, que presumo que ainda agora por lá continua…até ao dia de hoje nunca passou pela cabeça ao padre Ramos que o anjinho Gabriel que lhe entrava pela porta da frente da igreja, lhe saiu pela porta da sacristia já bem transformado num pequeno Lúcifer. Desta pequena peripécia da minha vida, que é real note-se, tirei três grandes lições:


1º- Os maiores inimigos da igreja nascem e crescem lá dentro.


2º - O inferno esta mesmo cheio de boas intenções.


3º - A vida não é como se projecta…é como ela calha.”





Impressão Digital Cereza às 23:47
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19 comentários:
De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 00:02
feliz ingresso nos bastidores missais...Xa
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(mailto:xa@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 00:51
Anjinho Gabriel, até nem é por nada, mas sou capaz de imaginar o teu ar de menino de coro :-)))) sim do coro nao é do outro ó. Já agora talvez juntar que o inferno e o céu são nesta vida. A propósito, lembro-me da minha mãe contar muito orgulhosa, que devido ao seu feito difícil ( raios que é mesmo) teve um namorado que lhe disse : Quando me casar não quero ter um inferno em casa! De nariz empinado respondeu: Sossega. que o céu na terra também não tens. E assim se acabou o namoro. :-))constancinha
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(mailto:ola_cusca@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 02:05
Que santinho tu me saiste..mas está muito giro.
Eu quando andei na 1º conunhão, tinha de ir á missa depois.
Andava comigo uma nina mais novita..
Quando chegava a capela, tinha sempre de ficar perto do altar..que era mais uma mesa que outra coisa.
O padre ria-se sempre a dar aquela missa.
Até que um dia descobrimos, que a miuda passava a santa missa a puxar as saias ao padre e espreitar por baixo.
Que belo divertimento.
anasimplesmente
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(mailto:ana_pcf@nectabo.pt)


De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 09:42
LOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL Seu diabreteeeeeeeeeeee!!! Tá giro sim senhor ;) As minhas recordações da catequese nem por isso são muito agradáveis... Só me lembro de ter aquela horrível sensação de, cada vez que mentia à minha mãe ou fazia outro disparate qualquer, ter a alma cheia de nódoas. lolllllllll Imagináva-as bem negras e gordurentas, difíceis de sair... ehehehhehe. Beijo para o autor deste post. Às vezes tb sabe bem rir :) Para ti Cereza, que continuas a oferecer-nos este cantinho acolhedor, aqui vai uma beijoca ;)alic
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(mailto:mceciliabpm@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 10:45
Para além de me fartar de rir com o teu texto, fez-me também voltar atrás no tempo (mas foi só um cadinho :PPPPPPPP) e senti saudades desse tempo. Meu Deus!!!!!!! do que eu me lembrei!!!! tempos aqueles..... os meus dias de catequese.... o que nós adorávamos depois da catequese correr para a igreja para ouvir falar o padre Guerra (que foi um Homem espetacular). Os tempos em que cantei no coro da igreja. Ups! Nostalgia a esta hora :P lol o que me fizeste lembrar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! mas foram tempos muito bons, tempos que já não voltam, mas que é sempre bom reviver :) aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii ok! não vou suspirar :PPPPPPP hehehehehehee ;)^Erina^
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(mailto:paula_m_sousa@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 11:15
Nossa, não há como uma boa gargalhada logo pela manhã...ahahahahahah.. imagino putos malandros escondidos na igreja a comer as hóstias todos. Que filme! Foi giro de ler! :) E lembra-nos as marotices que também fizemos ohohlalaMorgaineLaFaye
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(mailto:lab_marta@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 11:30
Bonito texto e belos episódios... looooooooooool Temos que admitir que da para rir... Pessoal... ate um dia no irc... Eu vou vindo ao blog :) Criador_Sonhos
(http://criadorsonhos.blogspot.com)
(mailto:miguel24lx@sapo.pt)


De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 12:56
É interessante como a semente do pecado nos atinge, a uns e a outros, duma forma absolutamente insidiosa. Quase sem dar por isso, vemo-nos subitamente afogados no mais inebriante dos mundos, em que a lembrança do conveniente e santo não mais é que um ténue resíduo e, por outro lado, nos enchemos até ao esgotamento das nossas mais suaves tentações. O louis enfrentou a vastidão do seu pecado à unidade, ao pares, aos molhinhos, tal e qual como eu. A única distância que nos separa, aos dois, é a que vai da hóstia à morena belíssima, da sacristia a qualquer lugar que possam imaginar. Mas o princípio é o mesmo. Para mim também se tornou uma questão de orgulho ferido... a partir de um certo dia, dependendo do stock disponível, nunca mudei, sequer, de disposição. Só deu mesmo Morenas Belíssimas. Espero que nenhum padre ou entidade, seja lá qual for, interrompa jamais o meu festim. Um beijo, deste V/ anjo (não Gabriel, certamente não inho), MaslowMaslow
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(mailto:manuel_azevedo@hotmail.com)


De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 14:10
Ehhee.. Até me pôs de bom humor. E também me fez lembrar de quando era pequenina quando ia prá catequese e era convidada a sair sempre mais cedo! ehehe ***Succubus
(http://sukkub.blogspot.com)
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De Selvagem Anónimo a 19 de Fevereiro de 2005 às 16:43
Nunca pensei que a cereza fosse publicar esta blasfémia no blog.Ela tinha-me pedido qualquer coisa sobre anjos e eu disse cá para mim: "Bom, vai uma neste registo, ela ri-se um bocado, arruma na gaveta e a minha dívida fica perdoada...". Mas ela é diabólica:)Quanto aos comentários agradeço imenso todos, mas assumo que não seria talvez texto para aqui. Só queria deixar eu próprio três comentários :Anasimplesmente já sabes bem, pelo que falámos, que não sou nenhum santinho, apenas um diabo de segunda. Maslow, há possivelmente mais a unir-nos do que tu possas imaginar. Constancinha, a vida não é como se projecta...:)Louis_Phere
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(mailto:jmcfilipe@oninet.pt)


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