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Urban Jungle

pensamentos, divagações e tangas da selva urbana

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29
Dez05

Crónicas de um Esquizo I

Cereza

É sempre com um prazer enorme que publico algo de um novo paineleiro. Amanhã teremos mais uma estreante, a Blocas




A fé de não ter fé
Já tive fé, e já tive a fé de não a ter…


Numa infância atribulada, mas rica em irmãos, decidi não ter fé. Éramos cinco garotos sem pai nem mãe presentes, calções sujos, sem outros para trocar, e o típico pé descalço. Não tinha sido baptizado, e os meus conhecimentos católicos resumiam-se à ave-maria e ao pai-nosso que a minha avó me tinha ensinado. Um livro velho de doutrina me fora oferecido, mas a minha cabeça andava longe e de todas as formas não o sabia ler, era preciso sonhar, e como sonhar enche a alma…

Decidi não ter fé, mesmo sendo novo demais para a ter. Afinal se Deus existisse onde é que estava o Pai e a Mãe, porque é que eu levava tanto açoite por ser criança, e tanto açoite por nada ter feito.

Passei a ter outra atitude de vida, passei a chorar porque um dia ia morrer, e aos meus seis anos passei a ter medo da morte. Longe de imaginar que havia fé, em não ter fé.
Vivia numa grande quinta de muros altos e cegos, longe de tudo, e mesmo que pudesse sonhar muito, os meus sonhos não iam para além de uma bicicleta que nunca chegou. Estava fechado dentro dos meus próprios sonhos e esses eram os tempos em que eu ria.

As minhas atitudes estavam comprometidas, pois, se não havia Deus, tinha de olhar por mim. Começa uma nova atitude, oposta à dos meus amigos que tinham a sorte de poder ir à catequese, começa ai a odisseia da fé.

Numa aldeia pequena só existiam três salas de aula, era obrigado a frequentar as aulas da 2ª classe, pois só para o ano haveria 1ª classe, e a professora por respeito ao pedido de família aceitou-me, e prometeu dar-me um acompanhamento diferente.

A curiosidade sempre me marcou, tentava fazer os exercícios de 1ª classe o mais depressa possível, para poder ouvir o que se passava dentro da sala de aula. Aos poucos e poucos já estava mais na 2ª classe do que da 1ª. Não tinha fé mas sim medo, medo de ser deixado para trás e apressava-me porque Deus não me dava a mão. Mais uma vez sentia-me excluído, não passava de um intruso, um incómodo, um pedido aceite.

Não queria estorvar ninguém e travo numa luta contra mim para me integrar na matéria corrente. Depressa dei nas vistas, e passei de espécime a exemplo, era a prova de vergonha dos que frequentavam a sala de aula. Se eu percebia, porque é que eles não haveriam de perceber? – perguntava a professora.

Eles não se esforçam porque não sabem que Deus não existe, não compreenderam que estão por conta própria. - pensei.
Desde esses tempos fui incrédulo, ateu se é que os ateus existem. Olhei por mim como pai e mãe, fui diferente de tudo que conhecia, e atirava-me de cabeça para as coisas com medo de as perder. Longo foi o percurso, e muitas foram as acções semelhantes, até eu acordar, acordar para a verdadeira realidade…

Tinha sido derrubado! Deus tinha mudado a minha vida, simplesmente por não existir. Apercebi-me que ele já lá estava, já lá estava dentro de mim, tinha existido quando eu mudei de atitude por Ele não existir, estava no reflexo de todos os meus actos, inundava todas as minhas acções.

Não condeno quem não tem fé, embora não perceba como é possível, mas ainda hoje não deixo de pensar nas limitações de quem as têm…



Esquizo



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