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Urban Jungle

pensamentos, divagações e tangas da selva urbana

pensamentos, divagações e tangas da selva urbana

Urban Jungle

09
Nov05

Por Portugal

Cereza

Com este titulo, descobri que o Flyman está em campanha eleitoral! loll

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A diferença entre os países pobres e ricos não é a idade do país. Vejam o caso de países como o Egipto e a Índia, que têm mais de 3000 anos e são pobres. A Austrália, o Canadá ou a Nova Zelândia que há 150 anos, quase não existiam, são hoje países desenvolvidos e ricos.

A diferença entre os países pobres e ricos não reside nos recursos naturais disponíveis. O Japão é a segunda economia do mundo, com 80% de território montanhoso e impróprio para a agricultura e criação de gado. No entanto, o país é como uma imensa fábrica flutuante, importando matéria-prima de todo o mundo e exportando todo o tipo de produtos.

A Suíça, apesar do seu pequeno território, cria animais e cultiva o solo durante apenas quatro meses no ano. Fabrica lacticínios da melhor qualidade e produz o melhor chocolate do mundo, importando cacau de África. Pequeno país, tem uma imagem de segurança, ordem e trabalho, o que o transformou numa caixa forte do mundo.

Os executivos dos países ricos em comparação com os dos países pobres, mostram que não há uma diferença intelectual significativa. A raça ou a cor da pele também não são importantes. Imigrantes rotulados de preguiçosos nos seus países de origem, são a força produtiva dos países ricos.

Então qual é a diferença?

A diferença é a atitude das pessoas, moldada ao longo das gerações, pela educação e pela cultura.

Nos países desenvolvidos, a grande maioria das pessoas segue os seguintes princípios de vida:
A ética como princípio básico;
A integridade;
A responsabilidade;
O respeito pelas leis;
O respeito pelo direito dos demais cidadãos;
O amor ao trabalho;
O esforço pela poupança e pelo investimento;
A disciplina;
A pontualidade.
Nos países pobres apenas uma minoria segue estes princípios básicos na sua vida diária.

Somos pobres porque nos falta vontade para cumprir e ensinar esses princípios de funcionamento das sociedades desenvolvidas.

Portugal não é pobre porque nos faltam recursos naturais ou porque a natureza foi cruel connosco. Somos assim por querer levar vantagem sobre tudo e todos. Somos assim por vermos algo errado e dizer "Deixa lá...". Os nossos políticos têm atitudes pouco dignificantes mas na hora da escolha, o que fazemos? Esbanjamos dinheiro em vaidades que depois faz falta para o essencial. Sacrificamos o ser ao ter...

Se gostam de Portugal, reflitam sobre isto...


Flyman

08
Nov05

O Jogo

Cereza

"...Fever, with his kisses
Fever when he holds me tight
Everybody's got the fever
That is something you should know
Fever isn't such a new scene
Fever started long ago..."

fever24 copy.jpg

Sentia-se dormente.

Aos poucos o corpo entrou num formigueiro que lhe provocava cócegas. O corpo todo sentia, em uníssono, aquele prazer.

Sózinha, só lhe restava imaginar, pensar no transbordar supremo que a levarà à supressão da inércia e lhe povoava a pele de caminhadas de dedos nómadas, sempre com ânsias de conhecer mais e chegar onde ninguém tinha ainda ousado penetrar.

Colocou um espelho em frente da poltrona e amantizou-se consigo própria. Explorou, enveredou por caminhos já gastos, mas nunca percorridos com calma, a calma que permite apreciar o orvalho que escorrega languidamente nas folhas, o sol a penetrar nos mais pequenos sulcos da casca da árvore, o vento a fazer balançar os ramos, numa canção de preliminares lentamente absorvidos, as flores a abrirem-se e a darem-se a passeantes com asas ou sem elas, para que possam aspergir o seu perfume, o seu cheiro, os seus fluídos.

Voltou a colocar o espelho no lugar, e enquanto o fazia, o seu peito mostrou-se nu e empertigado, perante ela. Gostou do que viu e, como quem prazenteiramente, passa a mão pelo cabelo ralo de uma criança rosada, pensou fazer o mesmo no bico eriçado que pedia uma utilização húmida e molhada, de modo a dar-lhe brilho, para acentuar a sua altivez. Os dedos de unhas cortadas rentes satisfizeram a vontade e o olhar. Provocou um arrepio onde antes estivera a dormência. Abanou-se. Voltou a experimentar a sensação, desta vez sem a suavidade do afago, mas já com o calor da experimentação, a força da vontade. Gostou ainda mais.

Afastou-se do espelho o suficiente para se ver até à zona curvilínea das ancas. Só tinha duas mãos e utilizou-as. Para que os seios se pudessem melhor ver a eles próprios, empurrou-os contra o espelho, pressionando-os e massajou a barriga e as ancas até adquirem a cor das bandeiras revolucionárias e o calor necessário à passagem imediata a outro tipo de acção.

O espelho via-a fechar os olhos num torpor solitário. O espelho, observador e não participante, perdeu o privilégio de olhar e ver, quando ela optou por se deitar no chão. Esticou-se, como se pretendesse agarrar com os dedos das mãos e dos pés, em simultâneo, algo ou alguém que ali não estava. Sentia uma grande serenidade e não pensava que pudesse ser interrompida naquele toque de felicidade. Continuou calmamente, certa que seria capaz de percorrer, senão todas, pelo menos algumas cores do arco-irís. O corpo fazia pressão sobre o chão duro que lhe endireitava as costas, que bronzeara enquanto as dava a comer a quem as olhava, na areia quente da praia do fim de tarde, que visitara sózinha, para variar.

Virou-se de barriga para baixo, passou um braço para debaixo do corpo, deixando-o acariciar o baixo ventre, enquanto molhava, à vez, com a língua brincalhona os dedos da outra mão, cuja palma lhe ia pressionando o queixo.

Levantou a cabeça e concentrou-se no vidro que, transparente, lhe levou os olhos à varanda em frente, dando-lhe a visão de um cigarro aceso, duma boca a fumegar e dum corpo grande, cuja cabeça estava virada na sua direcção.

Não se mexeu um milimetro. Não respirou mais depressa, não abandonou as intenções de continuar. Decidiu convidar e partilhar.

Olhou ostensivamente; a resposta veio com o atirar do que restava do cigarro, sem ver para onde caia, seguido de um salto para a varanda vizinha e depois para a sua própria varanda.

Do outro lado do vidro, pernas abertas, bem afastadas, a tapar o sol que a cobria, olhar de lobo em frente à vitima que, presa no brilho do olhar da fera, aguarda ser devorada.

Ninguém abriu a porta da varanda. A figura continuava, com baba a escorrer-lhe da boca, como um esfomeado em frente à montra de um restaurante, olhando para um suculento repasto que, ainda por cima, não estava a alimentar ninguém.

Ela continuava, agora já de costas novamente e com a cabeça completamente revirada para o poder continuar a ver. Com gestos rápidos, à muito aprendidos, mas não esquecidos, molhava os dedos que molhavam os cumes dos seios, com os seus próprios fluídos que oleavam a entrada secreta transformada em portão principal, engalanada de fios mais ou menos retorcidos, qual cortina que agora se afastava para permitir abrir e, como que inaugurar um maravilhoso espaço público.

O pote de mel estava ali e o urso ansiava por o alcançar. Doido, contorcia-se a um ritmo só dele, comandado por uma música imaginária, que exigia que o seu corpo esgrimisse.

Ficaram como convinha aos jogadores: um de cada lado.


Lena




06
Nov05

Menina Texazinha

Cereza

Alguém me traduz?

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Menina Texazinha,

Increbo-lhe a dar-lhe nobas cá da Ameijoeira do Arregaça, pruqe a menina num põenhe cá os cotos bai pa maise de mezes.

Poize a vila tem tido muta animasson, primeiru por conta das ileissões pa Junta! Ganhou o sinhor Dótor Almerindo qé muto boa peçoa e muto amigu do pobo! Beja lá qele inté andou a ofresser salpicões çem pedire nadinha! Aquele ome inté debia ganhare o tal prémio Móbel.

Maze já se sabe qá genti muto inbejosa e oube algums qe fizeram a desfeita de num asseitar !

Deziam eles, qe por cosa do salpicão iamos alebar cu porco na Junta!
Despoizes foie o Jaqim Morcela qe abriu um ristorante! Qe lindeza, inté tem daqeles candieiros xeios de pendiricalhos de vidru a pendere do teto.

Quem lhe miteu a ideia foie o filhu, o Tóne Morcela, qe estebe a istudare no istrangeiro. Veio muta gente de fora á inaugurasson e nozes támem fomos cumbidasdos pruqe açim comá çim inda semos parentes pru lado da Ti Mila Gargainera.

Ele eram madamas todas bem paramentadas, ele era joves muto bem apeçoados .
Oube um qinté botou faladura cumigo , mase eu num precebi gande coisa pruqe ele só dezia qe ali é qu comere era opífaro, ora eu de musica num percebu e sabia lá su rapaz tocaba opífaro.

Foi pena é qás tantas o Jaqim Morcela e o filhu desemtemderão-se pru cosa do slógane ou lá como raio se xama aqilo. Num sei pruqê, era bem bunito “ No ristorante do Morcela bai tudo pra gamela” .

Cá en caza támém andamus muto cuntentes pruqe o mê Custódio arranjoue uma moça qé um primor. Tirando a bubudeira crónica e a pouca buntade de trabalhar, a mossoila vesse logu qé boa peçoa num desfasendo.

Agora qe já passou a animasson anda tudo num currupio por mor da tal gripe nas abes. A gente estaba era abituada á gosma na bixarada, mas gripe nunca soubiu tal. Istu tamos no fin do mundo! Balha-me a Santinha qa mim ninguén me tira qé tudo castigos por os omes irem á Lua mexer no qe tá qeto.

E cum esta me ficu qe já se me tou atrazada pa lida.
Um abrasso pá menina Texazinha e recumendassões aos paizinhos cu Sinhore os cunçerbe, desta que sassina

Adozinda



Tex

05
Nov05

Duas cidades!

Cereza

Um texto do jornal Expresso enviado pela Tex. Um artigo discutível!

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(Cidade do Porto)

AMO o Porto, mas esta paixão deixa-me espaço para gostar muito de Lisboa.
Depois de um fim de tarde no miradouro da Graça, ninguém no seu perfeito juízo pode negar que Lisboa é uma das mais belas cidades do mundo.
São cidades diferentes. É fácil gostar de Lisboa logo à primeira vista. O Porto tem de se aprender a gostar.
As cidades são diferentes, mas ainda mais diferentes são as pessoas que as habitam.

No Premier, o «health club» que frequentava no Porto, quem chega solta um sonoro bom-dia, logo correspondido pelos que lá estão. As pessoas circulam nuas pelo balneário e conversam umas com as outras, sobre tudo e nada - a bola, a bolsa, os casos do dia. Toda a gente se conhece pelo nome e profissão. Ficámos todos satisfeitos e orgulhosos
quando a recepcionista Conceição acabou o curso de Direito.

Trouxe para Lisboa as maneiras do Porto, mas tive de me adaptar, porque não gosto de dar nas vistas - prefiro disfarçar-me na paisagem. Deixei de dar os bons-dias à chegada ao Holmes Place, porque me fartei deles fazerem ricochete nos armários - ninguém mos devolvia. E para evitar olhares desaprovadores ando pelo balneário com a toalha enrolada à cintura.

Gosto muito de Lisboa mas não gosto de algumas pessoas que a habitam.
Não gosto das pessoas que mal sabem que sou do Porto desatam a tentar imitar de uma forma grotesca a pronúncia do Norte, entremeando uns caragos com uns ditongos ditos à moda galaico-portuguesa. Abomino a ignorância dos que se julgam sem sotaque e tomam a sua adocicada e arredondada pronúncia lisboeta como o cânone da língua, que deve parte da sua riqueza às diferentes maneiras como é falada nas mais variadas latitudes e longitudes.

Gosto muito de Lisboa mas não gosto de alguns políticos que a habitam.
Não gosto de um Jorge Sampaio, cujas regras de educação lhe permitiram usar o discurso de inauguração da Casa da Música para criticar os «atrasos da obra» e a «derrapagem dos custos». Não me lembro de alguém ter criticado os «atrasos na obra» e a «derrapagem nos custos» nos discursos de inauguração do magnífico Centro Cultural de Belém ou da fantástica Expo-98.

Não gosto de um ministro Mário Lino, cujo código de boas maneiras lhe permitiu usar o discurso de inauguração de uma nova linha do Metro do Porto para ameaçar congelar a expansão da rede, devido aos «atrasos na obra» e à «derrapagem dos custos». Não me lembro de alguém ter ameaçado congelar a expansão do Metro de Lisboa na sequência dos escandalosos «atrasos na obra» do Metro no Terreiro do Paço ou da enorme «derrapagem nos custos» da estação Baixa/Chiado.

Não gosto de um ministro Manuel Pinho, cujos princípios éticos são largos ao ponto de abençoar um Prime que habilmente permite o uso de fundos comunitários em Lisboa, a mais rica de todas as regiões ibéricas (o Porto está em 27º lugar), de acordo com a UE.
É por causa de atitudes como estas que Portugal continua a parecer um bilhar que descai sempre para um só buraco - a capital. O grito de raiva «Nós só queremos Lisboa a arder» é a expressão (grosseira) da revolta de quem se sente discriminado. A única vacina eficaz contra esta raiva é corrigir as assimetrias que desequilibram o país.

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(Cidade de Lisboa)

in: Expresso, caderno Economia & Internacional, 13-08-2005

Enviado pela Tex

04
Nov05

Para todas as mães: uma historía de vida!

Cereza

Não há amor mais puro e belo, como o amor de mãe. Acho que não preciso de dizer mais nada! É mais um caso de vida, do qual muito me orgulho ter neste blog.

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Na hora da despedida
Ficou tanto por dizer
Que ansiosa e aturdida
Atrás de ti quis correr


Os meus olhos de cansados
Estão vermelhos como brasa
É dos sofrer passados
E da mágoa que os abrasa


Partiste sem um achego
Chorei lágrimas sentidas
São saudades não nego
E rolam bem doridas


Na hora da despedida
Fiquei presa aos olhos teus
E os teus aos meus
E chorei de comovida


Minha casa ficou escura
Desde o dia em que partiste
Toda ela é amargura
E a saudade não resiste


(Uma mãe desesperada)
15/06/2002

02
Nov05

SEXUS, NEXUS PLEXUS

Cereza

Apesar deste blog ser muito inspirado pelas "imagens" e a "irreverência" da "diva" Madonna, nunca tinha aqui colocado um mp3 ou video dela, apenas porque a música dela não faz o meu estilo (apesar de admirar)... mas quando li este fantástico texto (que confesso que não sei como ele apareceu na minha pasta de textos para o UJ) resolvi que tinha de colocar algo de muito arrojado! E quem poderia ser mais arrojada que a miss Erotica her self? Foi de tal maneira arrojado que tanto este tema "Justify my love" como o "Erotica" foram censurados por várias estações de televisões a nivel mundial... uma dela a MTV... Espero que este video vos inspire nos comentários :)

_madonna.jpg

sexus , nexus , plexus
pensava Henry Miller .
Mas , para mim , mais que tudo ,
quero sexus sem muito nexus
e com muito , muito plexus
ou vários e inusitados amplexos.
Plexo solar , central , umbilical
e todas as adjacências acima e abaixo
descobertas e hiperfuncionais
ao simples toque dos dedos,
curiosos , desejosos , ledos.
Quero sexus sem nexus algum,
pois não há nexus nesse desejo
que me move amedronta e alimenta
na estrada tomentosa
em que me desacorrento

Paulo F. Cunha
















02
Nov05

Um desafio!

Cereza

Todos sabemos que o UJ está a crescer, todos sabemos que cada vez tem mais qualidade devido á vossa contribuição. Por isso, as criticas construtivas e novas ideias são sempre benvindas! Hoje lanço um desafio... que fazer para melhorar este blog? Para já ficam a saber que já temos um dominio, que em breve vamos mudar de casa... Lá para janeiro teremos um novo desafio pela frente. Para já o Maslow deixou a sua opinião sobre os comentários... na minha opinião um texto que será no minimo controverso!


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Perdoem-me todos os meus companheiros bloguistas mas hoje eu creio que vou ter que ser um pouco ácido.

Tenho reparado que quando os temas, no blog, crescem no tom dos seus temas, a maioria de nós parece que se obstipa do cérebro e não sai coisa com coisa.

Efectivamente, a reacção a alguns dos últimos temas, abordados de uma forma mais ou menos ortodoxa, são de molde a deixar-me agitado.


De tal forma que, recentemente, estava eu a observar atentamente a estrutura de uns filmes que os meus filhos mais pequenos são levados a ver, pela mãe deles, e pensei para com os meus botões: - “Raios, deviam existir filmes assim para nós, os bloguistas”.

Refiro-me a uma série para crianças até aos 6 anos, não sei se reconhecem o nome, Noddy, e de uma série até aos dez anos, que se chama “O Corpo Humano”.

A alguns recomendaria uma estrutura parecida com aquela que é utilizada na série do Noddy, na medida em que a forma como racionalizam e reagem aos impulsos me parece bastante adequada a uma aprendizagem directa, linear e simples.

Outros, talvez consigam aprender com uma estrutura de mensagem um pouco mais elaborada, com metáforas e comparações, para enriquecer todos os detalhes que contenham as mensagens.

Eu creio ter aludido, num ou noutro dos meus comentários, ao que penso ser a forma mais correcta de analisar as situações que se nos deparam através das narrativas que são colocadas no UJ.

É obvio que a forma como encaramos as situações que são descritas deve ser sempre no respeito pela pessoa humana, pela sua individualidade e pela sua independência na escolha dos percursos que trilham.

Impressionando-nos, mais ou menos, cada uma das narrativas, acho primário, sem sentido e até bastante injusto que emitamos juízos de valor, condenemos alguém ou tomemos partido, especialmente quando temos sempre apenas a versão de um dos lados envolvidos.

Depois, acho que vivemos uma era de modernidade, de completa emancipação, ao menos nas ditas sociedades ocidentais, onde a partilha da diferença concorre com as éticas e moralidades tradicionais, sem espaço, portanto, para sexismos, descriminações, xenofobias ou racismos.

Daí que tenha que lamentar alguns dos comentários que li, mesmo os simpáticos e emotivos, que derramam esses desvios por todas as palavras.

Se pudesse, caras companheiras e caros companheiros bloguistas, reconstruiria o ser humano, sabem? Colocaria dentro das suas cabecinhas que nós temos uma responsabilidade principal, que é a de nos respeitarmos, que é a de gostarmos de nós, de sermos exactamente de acordo com o que nos melhor caracteriza.

Temos a responsabilidade de fazer as coisas, em primeiro lugar, para nós.
Até a magnanimidade e a solidariedade, até a filantropia e o desapego aos nossos bens, inclusivamente aqueles que o são intelectualmente, começa em nós.

Quando leio autênticos gritos de hiper-ventilação, de histeria, de enquadramento com o social, ética e moralmente correcto, fico estarrecido. Num espaço como este, que abre sempre debates, parece-me bastante mais enriquecedor sentir a arte do sentir de cada um, independentemente dos cânones, por mais representativos que o sejam.

Recentemente, pensei nisto. Quem me aceitar, aceite-me como sou, quem não me aceitar, que me “deslargue”.

Reconheçam isto como a minha mensagem principal e, mais do que se amarem uns aos outros, respeitem-se, como eu o tentei fazer através deste meu inconveniente tratado acerca de um estado de alma.

Bem hajam todos.


O Anjo

01
Nov05

Lua Dourada!

Cereza

A nossa querida Lua etá a organizar o nosso almoço de Natal com todo o carinho... A Lena dedicou-lhe um texto mais que merecido!

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As noites estavam quentes. Todos os momentos passados debaixo do telhado estrelado eram preciosos e únicos. O ar cheirava a perfumes caros e envolventes. O vento tinha emigrado para outras paragens.


Lá em cima, a sósia, contemplava-a, silenciosa.


Parecia estar muito quieta, mas movia-se. Porém, não tanto como ela. Os movimentos rápidos e o andar dum lado para outro, eram os gases raros misturados com o oxigénio do stress. Vivia. O descanso está marcado para a eternidade, imediatamente a seguir à morte. O agora, o já, o aqui, é dançar, é correr, é saltar, é viver. É amar também. Pelo menos às vezes.


A outra lá em cima, olhava-a.



Acreditava que só a via a ela, que lhe pertencia e não se negava. Acontece que ninguém tinha visto o titulo de registo de propriedade e era pensamento comum que pertencia a quem a olhasse. E quem a ela dirigia o seu olhar via-a branca, ora redonda ora em quartos, minguante ou crescente, à vez; a nova, ninguém a via. Chegava-lhe a menstruação e a Lua escondia-se para que não vissem as manchas vermelhas a macular a sua alma.


A Lua, a da Terra, era branca também. Calhara assim, podia ser uma mulata quente, uma oriental exótica, mas era uma branca afrodisíaca.


Tudo nela inspirava olhares a que desejos alheios, temerosos que os olhos mentissem, convidavam à confirmação através das mãos que, como toda a gente sabe, também vêem.


O facto de ser assim já lhe custara alguns dissabores.



O facto de ser assim já lhe propiciara algumas noites, dias, tardes, manhãs, madrugadas, entardeceres inesquecíveis.


A vida é assim. Ganhar, perder, trocar, partilhar. É assim a vida.


Adorava ver a expressão dos casuais amantes e comprazia-se dizendo a verdade, levando-os a pensar que mentia para se esconder:


-Chamo-me Lua.


As reacções iam desde o esbugalhar de olhos acompanhados do silêncio de quem não se interessa por nomes, até interjeições de admiração, forçadas ou não, e a expressões várias:


-E eu sou o Sol e vou aquecer-te como nunca.


E ela obrigava-o a derreter-se.


Ou então:
-Mostra-me o Mar da Tranquilidade


E ela mostrava o do desassossego.


Ou então:
-Finalmente vou ver a face oculta da Lua


E ela fazia-o viajar, às escuras, por montes e vales, obrigando-o a cair e a levantar-se o mais rapidamente que ele conseguia.


Lua. Assim se chamava.


Um dia beijara uma mulher, mas não avançara para além do interior da boca feminina que se lhe oferecia. A tonalidade do sabor não lhe arrepiara a pele, o contacto não lhe impôs o esplendor de que se rodeava quando fazia o mesmo com um homem.


Homens. Era a sua especialidade. Consubstanciava em si o efeito da Lua sobre as marés. Os homens eram as suas marés. Iam e vinham. Subiam e desciam. Ela, Lua, viajava na maré alta dos homens, trocando-os e substituindo-os quando vazavam.


Nunca tivera um namorado. Nunca se apaixonara. Sentia-se bem no seu papel de gueixa do mundo, gueixa da ocasião. E ocasiões nunca perdera nenhuma. As suas próprias marés levavam-na a ser ora calma ora inquieta, irreverente ou submissa, mulher ou menina, meretriz ou virgem, ansiosa ou paciente. Sabia ser um catálogo de emoções e sensações. Os seus impulsos sexuais estavam permanentemente activados e não requeriam qualquer motor.


Quando o viu, pensou que era mais um. Igual nas igualdades. Diferente nas diferenças que caracterizam qualquer pessoa.


Olhou-a e viu-a, mas não se aproximou. Não era caso raro, era um caso único.


Decidiu segui-lo, só, sem provocações.


Andou devagar, depressa, correu, parou. Sempre a seguir quem a olhava deliberadamente, desafiando-a. Parou definitivamente, junto ao mar e esperou por ela. Aproximou-se.


-Quer jantar comigo?


Nunca ninguém antes a convidara para jantar. Aceitava sempre uma experiência nova e disse que sim.


O vinho era bom, o comer não o provou. A expectativa era grande. Ele olhava-a em silêncio e em silêncio se foi embora. Secundou-o e viu o fumo do seu cigarro do outro lado da estrada chamando-a. Atravessou a rua com passos largos e a preocupação de não ser atropelada, fez com que deixasse de olhar e voltou a perdê-lo. Finalmente agarrou-o. Primeiro com o olhar depois com as mãos. Olhos nos olhos. O silêncio estava cheio de perguntas: quem és, o que queres, o que estás aqui a fazer.


A resposta, sonora, fez-se ouvir:


-Eu sou o satélite da Lua, o teu anjo da guarda A tua protecção fez parte das minhas tarefas e nunca me viste até agora porque acabei de realizar o meu mais secreto desejo: vou tomar o teu lugar. Vim substituir-te. Vim usufruir dos prazeres que foram teus até agora. Tens que voltar, aguardam-te na face oculta da Lua.


Pensou rapidamente: a Lua não tem satélites. Pois não. Devido a essa inequívoca realidade demonstrada e confirmada pela ciência, ele não deveria existir. Não lhe passou pela cabeça que mentia. Desprendeu-se do olhar e refugiou-se no calor da noite que a convidava a desfazer-se da roupa que a tapava.


Quem era aquela enigmática personagem, porque a seguia e principalmente e acima de tudo, porque não se deixara deslumbrar?


Apeteceu-lhe subir a uma árvore e esperar, como um gato. Habituada a satisfazer os seus mais pequenos desejos, trepou e sentou-se num enorme galho. Pessoas passavam cá em baixo.


Começou a ter sono. Pensou que ia cair e estranhamente não se importou. Deixou de ver. Tudo estava preto, negro, escuro, povoado de minúsculos pontinhos brilhantes.


Era a vista que se tinha na face oculta da Lua.


Lena


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