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Urban Jungle

pensamentos, divagações e tangas da selva urbana

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Urban Jungle

08
Nov05

O Jogo

Cereza

"...Fever, with his kisses

Fever when he holds me tight

Everybody's got the fever

That is something you should know

Fever isn't such a new scene

Fever started long ago..."


fever24 copy.jpg


Sentia-se dormente.

Aos poucos o corpo entrou num formigueiro que lhe provocava cócegas. O corpo todo sentia, em uníssono, aquele prazer.

Sózinha, só lhe restava imaginar, pensar no transbordar supremo que a levarà à supressão da inércia e lhe povoava a pele de caminhadas de dedos nómadas, sempre com ânsias de conhecer mais e chegar onde ninguém tinha ainda ousado penetrar.

Colocou um espelho em frente da poltrona e amantizou-se consigo própria. Explorou, enveredou por caminhos já gastos, mas nunca percorridos com calma, a calma que permite apreciar o orvalho que escorrega languidamente nas folhas, o sol a penetrar nos mais pequenos sulcos da casca da árvore, o vento a fazer balançar os ramos, numa canção de preliminares lentamente absorvidos, as flores a abrirem-se e a darem-se a passeantes com asas ou sem elas, para que possam aspergir o seu perfume, o seu cheiro, os seus fluídos.

Voltou a colocar o espelho no lugar, e enquanto o fazia, o seu peito mostrou-se nu e empertigado, perante ela. Gostou do que viu e, como quem prazenteiramente, passa a mão pelo cabelo ralo de uma criança rosada, pensou fazer o mesmo no bico eriçado que pedia uma utilização húmida e molhada, de modo a dar-lhe brilho, para acentuar a sua altivez. Os dedos de unhas cortadas rentes satisfizeram a vontade e o olhar. Provocou um arrepio onde antes estivera a dormência. Abanou-se. Voltou a experimentar a sensação, desta vez sem a suavidade do afago, mas já com o calor da experimentação, a força da vontade. Gostou ainda mais.

Afastou-se do espelho o suficiente para se ver até à zona curvilínea das ancas. Só tinha duas mãos e utilizou-as. Para que os seios se pudessem melhor ver a eles próprios, empurrou-os contra o espelho, pressionando-os e massajou a barriga e as ancas até adquirem a cor das bandeiras revolucionárias e o calor necessário à passagem imediata a outro tipo de acção.

O espelho via-a fechar os olhos num torpor solitário. O espelho, observador e não participante, perdeu o privilégio de olhar e ver, quando ela optou por se deitar no chão. Esticou-se, como se pretendesse agarrar com os dedos das mãos e dos pés, em simultâneo, algo ou alguém que ali não estava. Sentia uma grande serenidade e não pensava que pudesse ser interrompida naquele toque de felicidade. Continuou calmamente, certa que seria capaz de percorrer, senão todas, pelo menos algumas cores do arco-irís. O corpo fazia pressão sobre o chão duro que lhe endireitava as costas, que bronzeara enquanto as dava a comer a quem as olhava, na areia quente da praia do fim de tarde, que visitara sózinha, para variar.

Virou-se de barriga para baixo, passou um braço para debaixo do corpo, deixando-o acariciar o baixo ventre, enquanto molhava, à vez, com a língua brincalhona os dedos da outra mão, cuja palma lhe ia pressionando o queixo.

Levantou a cabeça e concentrou-se no vidro que, transparente, lhe levou os olhos à varanda em frente, dando-lhe a visão de um cigarro aceso, duma boca a fumegar e dum corpo grande, cuja cabeça estava virada na sua direcção.

Não se mexeu um milimetro. Não respirou mais depressa, não abandonou as intenções de continuar. Decidiu convidar e partilhar.

Olhou ostensivamente; a resposta veio com o atirar do que restava do cigarro, sem ver para onde caia, seguido de um salto para a varanda vizinha e depois para a sua própria varanda.

Do outro lado do vidro, pernas abertas, bem afastadas, a tapar o sol que a cobria, olhar de lobo em frente à vitima que, presa no brilho do olhar da fera, aguarda ser devorada.

Ninguém abriu a porta da varanda. A figura continuava, com baba a escorrer-lhe da boca, como um esfomeado em frente à montra de um restaurante, olhando para um suculento repasto que, ainda por cima, não estava a alimentar ninguém.

Ela continuava, agora já de costas novamente e com a cabeça completamente revirada para o poder continuar a ver. Com gestos rápidos, à muito aprendidos, mas não esquecidos, molhava os dedos que molhavam os cumes dos seios, com os seus próprios fluídos que oleavam a entrada secreta transformada em portão principal, engalanada de fios mais ou menos retorcidos, qual cortina que agora se afastava para permitir abrir e, como que inaugurar um maravilhoso espaço público.

O pote de mel estava ali e o urso ansiava por o alcançar. Doido, contorcia-se a um ritmo só dele, comandado por uma música imaginária, que exigia que o seu corpo esgrimisse.

Ficaram como convinha aos jogadores: um de cada lado.



Lena




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