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Urban Jungle

pensamentos, divagações e tangas da selva urbana

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13
Out05

Casos Reais: Putas, Prostitutas (os) e Prostituição

Cereza

Eu sempre soube que este texto do Abel seria polémico, pelo tema em si! Mas nunca pensei ler os comentários que li! Autênticos relatos na primeira pessoa. Fiquei inpressinada... impressionada no bom sentido, pela coragem, pela firmeza, e pela beleza dos relatos!
Abel, Otilia e _eu_ sinto-me extremamente orgulhosa em tê-los aqui no Urban Jungle! Para vocês um abraço do tamanho do mundo!


072 copy.jpg


Relato I


Quem escreveu isto não fui eu, foi a Lena que me convenceu e eu falei e ela escreveu como eu disse. Eu li tudo e quis que isto ficasse escrito. Não sei o que é um blog, já tinha vindo à internet com um dos meus bisnetos e agora li o que escreveram, quer o Abel quer os comentadores e a Lena explicou-me umas coisas que eu não percebi e gosto que se fale da minha vida.



Tenho 70 anos e sou prima da mãe da Lena. Fui puta durante 30 anos com carteira profissional. O Abel tem razão, havia carteira de saúde, mas não por nossa causa, e sim por causa dos clientes. A diferença entre puta e prostituta é a mesma entre conduzir um carro e guiar um carro, ou seja, não há diferença. Falo por mim. Sempre usei a palavra prostituta quando estava diante da polícia ou no médico. Entre nós e com os nossos homens éramos putas. Eu não tinha relações sexuais, isso é de há uma dúzia de anos.



Nós íamos p’ra cama com os homens, fazíamos os homens e quando estávamos mais à vontade umas com as outras fodiamos os homens. Ainda hoje moro na mesma zona onde sempre trabalhei, onde viveram os meus pais, que vendiam num mercado, onde vive a minha irmã que nunca foi puta. Eu sou casada, casei-me há 30 anos com um homem que conhecia a minha vida e que eu amo profundamente. Ele ajudou-me a mudar de emprego como se calhar os vossos homens e mulheres já os ajudaram a mudar de emprego também. Tenho a certeza que todos vocês têm uma profissão, como tem a minha filha, os meus netos e os meus bisnetos e eu também tinha, era o que eu sabia fazer. Os corredores e os jogadores de futebol não usam as pernas? Os artistas de circo não usam o corpo para se contorcerem? Eu usava o corpo para viver, usava o que normalmente temos tapado mas também as mãos e a boca e digo muitas vezes que hoje se usa a boca para fazer coisas horríveis e muito nojentas e não têm nada a ver com o que eu fazia.



Tinha clientes fixos como eu sou hoje cliente fixa do café da esquina. Não vejo diferença. Umas pessoas escrevem, outras dançam, outras percebem de informática e são craques nessas coisas. Eu fazia-os vir depressa para receber e esperar por outro. Muitas vezes era mãe, irmã, amiga, psicóloga, outras vezes era só para despejar. A polícia chateava de vez em quando mas era porque eram acusados de fazer pouco e então iam às putas. Esta expressão era utilizada porque nos chateavam e porque muitas vezes nos obrigavam a trabalhar sem nos pagar.



A minha filha é filha dum cliente que tive muitos anos e que a perfilhou. Não é fácil ser filha duma puta. No bairro, um das sete colinas de Lisboa, toda a gente se conhecia e uma era vendedeira, outras lavadeiras, eu sou do tempo das lavadeiras, outras eram mulhers a dias como se diz hoje, naquela altura, dizia-se que serviam, e até havia uma que trabalhava na construção civil. Na rua falávamos todas umas com as outras mas elas não queriam que as filhas brincassem com a minha. E eu ofendia-as. Dizia-lhes como eram os homens delas na cama e eles nem eram meus clientes.



Mas doía-me que não deixassem a miúda brincar e usava as armas que tinha. Elas eram as mulheres eu era a puta. Há ou havia mais diferença entre mulher e puta do que entre puta e prostituta. Eu trabalhei numa casa e na rua. Conheci o meu marido na cama como se calhar vocês conheceram os vossos nos sítios onde trabalham. Lembro-me de ver um filme onde o protagonista trabalhava com merda de elefante, era um filme cómico e ele até era doutor e analisava a merda como também analisam a nossa se estivermos doentes. É preciso pessoas para tudo. Tenho a quarta classe, sei ler e escrever, mas mal.



Os meus pais obrigaram-me e ainda bem a ir à escola, mas depois desisti porque era preciso arranjar dinheiro para comer. Acho que hoje há também muitas putas porque não querem fazer mais nada. É fácil ou pensam que é fácil. Vender prazer é esgotar o nosso prazer. Eu agradeço eternamente ao meu marido por me ter amado desde o primeiro instante, mais do que por me ter tirado da vida. É que eu ainda tenho prazer com ele.



Naquela altura não havia mais nada para fazer. Ou íamos p’ra cama com os homens ou passávamos fome. Também quero dizer que já havia homens que davam o cu e muitos. Mas aqueles que queriam mulher não queriam mais nada e os que queriam miúdos não iam às putas. Não havia concorrência. Isto foi um favor que eu fiz mas fico satisfeita de pessoas com cultura falarem de gente como eu.



Se eu pudesse mandar não havia putas, mas como há é como os buracos na estrada, caímos lá dentro mesmo que até desviemos o carro. Obrigada.



Otilia
@ outubro 12, 2005 09:30 PM


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Relato II


Realmente é um tema que dá muito para pensar e eu podia ficar horas a escrever sobre isso. A minha opiniao sobre o assunto nao vai ser dada agora, talvez ate nunca seja... apenas quero dizer que tenho uma pessoa de familia que é prostituta.



Falta de carinho, de dinheiro, de apoio? Nao! Teve tudo o que quis da vida, mesmo após de ter cometido erros gravissimos toda a familia continuou de bracos abertos para a receber de novo, ainda continua. alias, nunca ninguem a expulsou de casa. Abandonou um filho, entretanto engravidou de outro homem e abandonou de novo o outro filho. E depois é claro que eu fico sempre a pensar: teve a liberdade que quis, todo o apoio, nunca lhe faltou dinheiro, nem sequer para os vicios mais obscuros e entao porque fugir de alguem conhecido com alguem a ve nas ruas, porque abandonar duas criancas das quais nao tem noticias ha 7 anos? Há coisas na vida que nunca vamos compreender</p>

_eu_
@ outubro 12, 2005 03:05 PM



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